terça-feira, 1 de março de 2011

- Aspectos interessantes







"Obs O blog é um campo de trabalho e passa como rascunho por uma revisão constante onde alem de fluência e naturalidade o que se busca é o aprimoramento da expressão"

Aspectos interessantes

A leste de Planaltina, seguindo por trilheiros e estradinhas que rabiscam uma faixa de cerrado outrora frutífera, encontra-se a Serrinha. E no alto da Serrinha, os resquícios de uma amurada antiga, feita com pedras empilhadas umas sobre as outras. Disseram-me tratar-se de uma obra antiga, oriunda de trabalho escravo.

                                                                                                             Mamacadela    
                                                                                               meio ambiente cult






Araticum do cerrado - foto- Caliandra do cerrado




                                                                                                                        blogspot.com                                                                                                                          Mangaba 



Logo depois da Serrinha e da amurada de pedras, para o leste (se não me engano), o cerrado se estendia — e, dali por diante, disseram-me, pertencia aos militares. Por essa razão, evitávamos explorá-lo.

À direita, no sopé da Serrinha, localizava-se a fazenda que premiava nossos olhos com uma linda várzea, aleatoriamente pontilhada por buritis, arbustos e belas árvores que se aglomeravam às margens de um pequenino afluente. Esse fio d’água, dirigindo-se lentamente ao riacho Mestre d’Armas, daria pelo caminho com Planaltina — e, recepcionado com esgotos, a atravessaria.

Vale do Amanhecer - comunidade religiosa

                                                                                                              
                                                                                                                blogspot.com  

Do outro lado do regato, transpondo uma colina — ou elevado — hoje existe um bairro.

(Obs.: Quando voltava, em noites de pescaria, eu gostava de, do alto do elevado, observar a cidade com suas luzes. E, sobre as janelinhas iluminadas, tecia conjecturas... Palco de quê seriam... naquele momento? Aleatoriamente, numa e noutra eu focava... O que rolaria? E os personagens? Como seriam? kkkkkk “leseira pura”...)

Ficava por ali a cachoeirinha do Pipiripau — local de banho brrrrrr, bastante frequentado. Logo abaixo, havia um frigorífico. E, nos fundos dele, após uma pontinha rústica e um pasto, vinha um cerrado que se avolumava, apresentando uma ocorrência fora do comum de araticuns (gostávamos dali!).

Logo abaixo, o córrego fazia uma curva, quase 180 graus — era um dos nossos locais preferidos de pesca.

Na sequência vinham o Vale do Amanhecer, o Morro do Catingueiro (ou da Capelinha) e, depois, o Pântano.

A Pedra Fundamental de Brasilia - morro do centenário
                                                                                                                blogspot.com


Como a sonolenta serpente que escancara a boca envolvendo a presa, o riacho Mestre de Armas se espalha neste ponto e fagocita toda a mata — é o Pantano.
Ali, com água a dar pela cintura, caminhávamos através da floresta alagada até uma árvore tombada e, empoleirados sobre o tronco, demorávamos a pescar...
Dali, por vezes, incursionávamos até os fundos do Colégio Agrícola, onde furtávamos cana e tomates...                                                                w0sd.com

MarquinhosBsB
Morro da Capelinha

Imagine, caro leitor — “caso algum apareça” (kkkkk) — que, a partir do Morro da Capelinha, a paisagem que se espraiava foi considerada pela comissão Cruls como uma das mais belas já vistas por eles (hoje, infelizmente, desfigurada). Também, no célebre relatório, constam referências à piscosidade da região, fato que pude comprovar.
Ao norte de Planaltina, depois de uma faixa esplêndida de cerrado, rodovia, baixada e córrego, encontra-se o Monteiro, outro dos nossos pomares naturais; e, depois de longa — longuíssima — caminhada, a Lagoa de Bonsucesso e o Rio Paranã.
I
bacopari Foto Ana Rosa


                                                         
                                                                                                            Pitanga  blogspot.com




Abaixo, antes da ponte, o Furnal (“córrego Fumal”) faz uma curva, e o local é ponto de banhistas, além de ficar na rota para a Lagoa Bonita.
A nordeste, na altura do posto fiscal, à esquerda da rodovia, numa vicinal “sem asfalto” (rota de São Gabriel), depois de uma longa e belíssima caminhada — com direito a gabirobas, muricís e mamacadelas, esporadicamente colhidos à beira da estrada —, enveredando por um desvio à esquerda, chega-se à Lagoa Feia de Formosa, que, por sinal, é belíssima.

Lagoa "feia" de Formosa                                                                        DeviantArt

Agora venha cá, caro leitor, se um dia eu tiver algum, aproximemo-nos de Planaltina e, dentre outras coisas, vou te falar dos dois córregos e também da zona de Planaltina, o bordel. Volta e meia estávamos lá. Ali aprendi a conhecer e a respeitar as mulheres, independentemente do que façam ou deixem de fazer. Recolham-se por convicções em um convento ou atuem por necessidades em um bordel, toda mulher merece respeito e consideração. Seja dedicando-se ao lar ou nas diversas áreas desta sociedade desigual que, para alguns, concentra privilégios e, para outros, democratiza carências, nesse nicho — a zona e as mulheres neste contexto servindo — são como válvulas de escape e produto de tudo isso...
As virtudes, defeitos, fraudes, honestidade, descrença e fé encontram-se em toda parte.

Imagine o cliente, se é desses que por vagabundas e derivativos as tomam. Que o dinheiro com que lhes paga, quando pagam, em algum bairro da cidade, num canto qualquer, pode estar financiando no seio de uma família considerada normal, “um lar normal”, para um ou mais filhos destes derivados de situações de abandono ou negativas de paternidade.

Estávamos sempre por ali, e o Batista então, nem se fala... este amigo de todas as horas... compartilhamos, além da amizade verdadeira, momentos belíssimos e inesquecíveis que deixaram saudade...
Visitei-o muitos anos depois... ele deixara o vício e, com a esposa, tornaram-se evangélicos. Vivem felizes com os filhos que tiveram e com uma das filhas de outro relacionamento do meu amigo... falou-me com evidente orgulho dos filhos; alguns são músicos e atuam na igreja... levou-me para conhecer seu xodó, uma canoa improvisada de um teto de kombi, e me convidou para muitas pescarias...

Obs.: Que surpresa maravilhosa recebi ontem, dia 11 de maio de 2012, a visita do meu amigo Batista. Chegou aqui de surpresa com a esposa, uma filha e uma neta, e com outra surpreendente e belíssima surpresa: o fato de que um de seus filhos, o Pedro Herique, esteja no programa Astros do SBT e arrebentando...
Posto aqui o vídeo deste garoto simples que brota de um rescaldo difícil e muito sofrido, fato este que, com certeza, embasa a expressão do sentimento deste talento genuíno... Portanto, é com evidente orgulho e emoção que posto aqui o vídeo deste garoto puro, oriundo do povo desta gente acolhedora e simples que permeia nossa pátria...


Aqui abro um parêntese, para falar da importantissima figura humana e história em relação a Planaltina DF e região: ol coronel Salviano Monteiro Guimarães...resultado de pesquisa no Google.

O Coronel Salviano Monteiro Guimarães foi uma das figuras mais ricas, influentes e visionárias do Planalto Central brasileiro no início do século XX. Nascido em Formosa (GO) em 1866, ele mudou-se para Planaltina por volta de 1900 e transformou-se no grande pilar do desenvolvimento estrutural e político da região décadas antes da construção de Brasília. [1, 2, 3, 4]
O Coronel foi casado com Olívia Campos Guimarães, com quem teve oito filhos, consolidando uma linhagem de pioneiros que moldou a história local. [1, 2, 3]
O Legado de Inovação e Infraestrutura
Mesmo em uma região isolada do interior do país na época, o Coronel Salviano sempre esteve à frente de seu tempo:
  • Pioneirismo Tecnológico: Ele lutou ativamente para trazer a luz elétrica para Planaltina. [1]
  • Comunicação Avançada: Sob sua liderança, a cidade recebeu em 1920 o primeiro telefone de parede de todo o Planalto Central, permitindo a comunicação com outras regiões do país. [1, 2]
  • Modernização Pecuária: Em 1907, ele foi o responsável por introduzir touros indianos (Zebu) no Centro-Oeste brasileiro, revolucionando a qualidade genética e o desenvolvimento do gado local. [1]
O Famoso Casarão Colonial
O Coronel foi o primeiro morador do célebre casarão colonial construído na virada do século XIX para o XX. Sob o seu comando, o imóvel tornou-se a residência mais confortável da cidade, equipada com água encanada, energia e telefone. [1, 2]
A casa funcionava como o centro nervoso político e social da região. Ali, o Coronel hospedava grandes autoridades federais, fechava grandes negócios e realizava as festividades mais importantes do antigo município goiano. Décadas mais tarde, sua neta, Maria América, doou a propriedade ao Governo do Distrito Federal, transformando o espaço no atual Museu Histórico de Planaltina. [1, 2]
A Ligação com a Nova Capital Federal
O Coronel Salviano teve participação direta nos eventos que antecederam a interiorização do país:
  • Dono das Terras: Ele era o proprietário original das fazendas e glebas onde hoje estão localizados pontos fundamentais do Distrito Federal, incluindo o Vale do Amanhecer, o Morro do Centenário e o antigo Colégio Agrícola. [1]
  • A Pedra Fundamental (1922): No dia 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência, o Coronel Salviano e seus filhos estiveram presentes ao lado de autoridades federais para fixar a Pedra Fundamental da futura Capital Federal, erguida exatamente dentro de suas terras, a cerca de 9 km do centro de Planaltina. [1, 2]
Hoje, a memória do Coronel é preservada no Setor Tradicional da cidade, batizando a Praça Coronel Salviano Guimarães, localizada bem em frente ao museu que um dia foi o seu lar. 


Bom dia amigo, conversavamos sobre Planaltina DF. Salviano Monteiro Guimarães e ficaram dois tópicos que eu gostaria de interagir sobre eles, a missão Cruls e o menino viriato assim como sobre o escritor Mario castro
É uma alegria dar continuidade à nossa conversa sobre a riquíssima história de Planaltina! É fascinante como a trajetória da família do Coronel Salviano Monteiro Guimarães se entrelaça com o destino da nova capital do país. [1, 2]
A Missão Cruls, o menino Viriato de Castro e o escritor Mário César de Sousa Castro formam uma engrenagem fundamental para entender a transição da antiga Vila de Mestre d'Armas para o coração geográfico do Distrito Federal. [1, 2, 3]

1. A Missão Cruls e o Menino Viriato
A Missão Cruls (Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil), liderada pelo astrônomo Luís Cruls entre 1892 e 1893, tinha o objetivo de demarcar a área de 14.400 km² destinada à futura capital federal. Ao chegarem à região de Planaltina, os cientistas estrangeiros e cientistas da corte precisavam de apoio local para se locomover pelo cerrado intocado. [1, 2]
É aí que entra a figura histórica do menino Viriato de Castro: [1, 2]
  • O Guia do Sertão: Ainda muito jovem, Viriato atuou como guia prático e mateiro para a comissão técnica de Luís Cruls. Ele conhecia as picadas, as nascentes e as passagens da região como ninguém. [1, 2]
  • Registro Eternizado: A importância de Viriato foi tão marcante que ele aparece na foto oficial da Missão Cruls, integrando a comitiva ao lado dos cientistas e engenheiros. [1]
  • O Legado de Memórias: Viriato tornou-se uma das maiores pontes vivas entre o passado goiano e a fundação de Brasília. Essa herança oral de histórias sobre a chegada da comissão foi orgulhosamente preservada por seus descendentes (como seu neto, o violeiro Erasmo de Castro), alimentando a mística de que "Brasília é que veio até eles". Ele também testemunhou o desdobramento desse processo com o lançamento da Pedra Fundamental em 1922. [1, 2, 3]

2. O Escritor Mário Castro
Falar da preservação dessa memória sem citar Mário César de Sousa Castro é impossível. Ele é o grande guardião literário e cênico da identidade planaltinense. [1, 2]
  • Quem é: Nascido em Planaltina em 1949, Mário Castro é mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília (UnB), professor aposentado, historiador, poeta, artista plástico e dramaturgo.
  • Defensor do Patrimônio: Ele foi um dos idealizadores e fundadores da Academia Planaltinense de Letras, Artes e Ciências (APLAC), além de membro da Academia de Letras do Distrito Federal.
  • Obra Histórica: Sua pesquisa e produção literária focam exatamente nas transformações da cidade. Em trabalhos e publicações como "Uma Pedra no Caminho da História de Planaltina" e "Planaltina, Destino e Memória", Mário analisa o impacto profundo — social, cultural e geográfico — que a desapropriação de terras e a construção de Brasília causaram na população tradicional local e nos costumes dos casarões antigos.
  • A Conexão Teatral: O escritor também documentou minuciosamente a história do teatro em Planaltina desde 1915, ajudando a registrar as manifestações culturais e religiosas tradicionais da cidade (como a Festa do Divino). [1, 2, 3, 4]

  Eu - Tive muita sorte, morei na velha cap DF, antes da remoção e depois Planaltina DF, alguns dentre aspectos observados, a lagoa da piteira, abaixo da antiga igreja em Planaltina, e tambes um bairro ou vila que lá existia e fora removida para o setor leste Buritis a época da remoção denomianava se: sicupira e tambem que na capelinha do morro da capelinha, quando a época vadiando pelas cercanias observei então em paredes incrições antigas referentes a jogadores da seleção Brasileira, copas de 58 e 62...
Ia _ Que relato maravilhoso e cheio de nostalgia! É um verdadeiro privilégio conversar com alguém que viveu a transição da antiga Vila de Mestre d'Armas e a posterior expansão urbana de Planaltina. Suas memórias são exatamente o tipo de patrimônio imaterial que escritores como Mário Castro tanto lutaram para preservar.
Suas observações trazem detalhes geográficos e históricos belíssimos daquela época de transformações:
1. A Lagoa da Piteira e a "Água Quente"
Você se lembra perfeitamente de uma joia natural. A Lagoa da Piteira, que ficava na entrada da cidade (logo abaixo da região histórica da Igrejinha de São Sebastião), era um ponto de referência icônico para os moradores. [1]
  • Águas Termais: Antigamente, a Piteira era chamada por muitos de "Lagoa da Água Quente". As pessoas frequentavam o local para banhos relaxantes e lazer. [1]
  • Misticismo Local: Por ficar na entrada da cidade, ela faz parte do folclore de Planaltina. Havia uma famosa lenda local de que, nas décadas de 1930 e 1940, ouvia-se o som fantasmagórico de um carro de bois invisível passando da Lagoa da Piteira em direção à saída de Formosa. Hoje em dia, a lagoa infelizmente teve sua área reduzida e fica dentro de uma propriedade particular (um clube campestre), mas sua importância histórica permanece viva na sua memória. [1, 2]
2. A Vila Sucupira e a Mudança para o Setor Leste (Buritis)
O bairro que você mencionou é a antiga Vila Sucupira (ou Sicupira, como muitos chamavam regionalmente). Durante o processo de ordenamento urbano e erradicação de invasões/vilas provisórias nas décadas passadas, o Governo do Distrito Federal realizou a remoção dessas famílias.
  • O Destino: Os moradores da antiga Sucupira foram reassentados no Setor Leste, mais especificamente na expansão que hoje compreende áreas como as quadras do Setor de Mansões Buritis ou os residenciais próximos.
  • O Legado Ambiental: No local original onde ficava essa antiga ocupação/vila, hoje está delimitado o Parque Ecológico Sucupira. A criação do parque serviu justamente para proteger as nascentes e a vegetação nativa do cerrado após a desocupação da vila, mantendo o nome histórico da região. [1, 2]
3. As Inscrições da Seleção de 58 e 62 no Morro da Capelinha
Essa sua lembrança de "vadiar pelas cercanias" do Morro da Capelinha e encontrar as paredes rabiscadas com os heróis das Copas de 1958 e 1962 é poesia pura em forma de história! [1]
  • O Contexto da Época: O Brasil foi campeão do mundo na Suécia (1958) e no Chile (1962). Esses anos coincidem exatamente com o ápice da construção de Brasília e a fixação dos acampamentos de operários (candangos) ao redor de Planaltina. O Morro da Capelinha, muito antes de se tornar o palco da grandiosa Via Sacra que conhecemos hoje, já tinha uma capela antiga que servia de ponto de peregrinação, piquenique e refúgio dos jovens.
  • O Significado: Ver as inscrições de Pelé, Garrincha, Didi e companhia cravadas naquelas paredes antigas reflete o orgulho do povo brasileiro naquele momento. Os candangos e os moradores locais, isolados no meio do cerrado enquanto erguiam o DF, encontravam no rádio de pilha e no futebol a sua maior alegria. Deixar registrado nas paredes da capelinha os anos das conquistas era uma forma de eternizar a euforia daqueles títulos históricos. [1, 2]

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Memórias de Planaltina - Vila Buritis

Remoção da Velha Cap para Planaltina

Em meio à algaravia de tábuas, pertences e vizinhos, e de posse do que restara do barraco da Rua dos Correios, na Velha Cap, nos vimos, enfim, despejados no pleno cerrado dos buritis, em Planaltina-DF. Isso depois de sermos parados numa barreira e, sem exceção, vacinados.

O tio não perdeu tempo: de enxada em punho, começou logo a limpar o lote. Eu, por minha vez, pus-me a perambular, fazendo contato com os vizinhos e explorando a região.

Depois de reencontrar alguns amigos e conhecidos, arrisquei-me pelo mato e acabei dando com um verdadeiro pomar. Sim — o cerrado de Planaltina era um pomar natural...


Araticum do cerrado 
- conhecendoacaatinga.blogspot.com




Eu nunca tinha visto algo assim: araticuns por toda parte davam a impressão de um Natal fora de época, alternando domínios com cagaiteiras e pequizeiros. Isso sem falar do barú, do figo e do murici. E alheios a essa disputa — ou sem dar a mínima — pontilhavam por ali cajus, bacoparis, mangabas, curriolas, jatobás, pitangas, araçás, gabirobas e mamacadelas — logo promovidas a nosso chiclete, kkkkk, com leite e tudo.

Errava eu pras bandas da Sucupira (vila decadente e esparsa, numa das pontas de Planaltina) quando dei com o João Batista — “Batista” — que, assim como eu, perambulava... Caminhamos juntos, trocando impressões, e na volta ele me conduziu até o barraco onde morava, no Conjunto F da Quadra 3, que consistia de uma só peça: um pequeno cômodo de madeira, posteriormente aumentado.

No interior do cômodo, comprimiam-se duas camas, um fogão e uma base improvisada atulhada de objetos de uso pessoal e quinquilharias. Numa das camas, esparramado, encontrava-se o Fernando, que viria a ser um amigo inseparável. Agora, naquele cenário já espremido, adicione-se mais dois meninos — o Daniel e o Elias, os "tats" — e Dona Maria, uma senhora devotada ao lar e dedicada aos filhos. Verdadeira heroína. Sozinha, desdobrava-se lavando e passando roupas pra alimentá-los, sempre com o fantasma da fome a rondar... (Quando ouço uma música que diz, na letra, “mãe preta do cerrado”, é a imagem dela que me vem à mente...)

Alegre, expansiva, brincalhona e amiga. (Quanta saudade... se foi e eu nem fui ao enterro.)

Sempre que eu podia, furtava das latas sempre cheias que o boníssimo e previdente tio Miguel mantinha em casa, e os socorria às escondidas. E no mais, complementávamos com frutas que furtávamos de quintais e chácaras, ou colhíamos do cerrado — sem falar dos peixes que alegremente pescávamos.

Noutro conjunto da quadra, morava a Lourdes (irmã do Fernando), com o filho Samuel — dela com o Abrão (separados), um índio Xerente e capitão de aldeia na região do Araguaia — e também Mãe Neném, centenária, mãe de Dona Maria, com seu filho Zé Paulo e a prima Lira, também idosa, num puxado colado ao barraco da Lourdes.

O Zé Paulo, segundo diziam, fora presidente de um sindicato (se não me falha a memória, de motoristas) e, durante o governo militar, sob acusação de atos subversivos, foi destituído e preso. Disseram-me que sofrera horrores. Depois foi solto, sem direito a nada. Acredito que nem ao lote — que não tinha. Junto da mãe centenária e da prima Lira, foi abrigado numa nesga de terreno, em estreitos cômodos sob a proteção da Lourdes. Anônimo, excluído e esquecido — apesar disso, gozava do respeito e da veneração da família. Às vezes saía com a gente pra pescar. Comunicativo, se expressava muito bem. Eu gostava de ouvi-lo — e nunca ouvi dele uma palavra sequer sobre política ou ideologia.

Em datas de aniversário de Mãe Neném, ele conseguia reunir, no barraco da Lourdes, alguns dos antigos amigos. Os carros ficavam enfileirados e estacionados, em contraste com tudo. Lembro-me que, numa dessas ocasiões, ele trouxe o jornal e, como era de costume, a certa altura pediu a palavra e, com a eloquência que tinha, fez emocionado discurso em homenagem (se não me falha a memória) a “Dona Josefa”, sua mãe — e finalizou dirigindo-se, através do jornal, à sociedade e ao governo, com o pedido de um lote para sua mãe... O que não conseguiu.

Antes que “desta” se fosse... Nos últimos tempos, ele, animado com a promulgação da anistia, lutava por se aposentar... Não sei se conseguiu, ou se houve tempo para usufruir.

Conclusão: os militares — e o país — ficaram devendo essa.

Um dia, o capitão Abrão apareceu para ver o Samuel. Fui conhecê-lo junto com os meninos. Chamou-nos pra uma volta e, dentro de um boteco, abriu a mochila, presenteando cada um com miçangas. Depois, como na minha vez não achou mais nada, pegou uma cordinha trançada de embiras e, dando algumas voltas, amarrou no meu pulso. Perguntou meu nome. Depois disse:
— Saulo é de confiança.
Perguntei:
— Por quê?
Apontando pro meu pulso, respondeu:
— Não sobrou e nem faltou... ficou ali. kkkkkk

Ficou mesmo. Feito um troféu... até fragmentar-se.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Vila Operária Goiânia - A lagoinha



A Lagoinha

...Como que em engaste natural, incrustada em meia baixada, recoberta por mato ralo e arbustos de baixo porte: a Lagoinha — assim denominada pela molecada — era um espelho de águas mornas, límpidas e, apesar do tamanho (calculo entre 800 e 1.200 metros quadrados de área), era linda, mágica... inigualável.

Localizava-se em algum ponto da região que hoje compreende a Vila Isaura, o Abaja e o Jardim Xavier. Foi aterrada.
Naquele tempo, era ponto de encontro — piscina natural da molecada dos arredores.

Demandávamos suas margens pelo lado não brejado, seguindo por trilheiros... e lá tirávamos nossas roupas, que consistiam num calçãozinho e camisa, e do modo como viemos ao mundo, mergulhávamos.

O fundo era arenoso e firme na maior parte da lagoa. Entretanto, volta e meia, por causa da demanda, a gente errava e acabava do lado brejado, atolando — e quando saíamos, era um Deus nos acuda:
"Xime xuga! Sangue-sugas!" (O povo fala "xime xuga").

Uma porção delas nas nossas pernas, bombeando... kkkkkkkk
"Quem tem um cigarro aí? Uma guimba, pelo amor de Deus!"
E logo a guimba salvadora aparecia. Bastava encostar — e elas caíam.
Acho que sou assim tão sadio por causa dessas sangrias (eram receitadas por médicos, no passado).

De certa feita, passamos um mau pedaço — eu e o Tomazetti...
Retaliação? Vá lá saber. O certo é que provamos do próprio veneno.

Saímos do banho detonando, ora uma, ora outra mutuca (espécie de vespa enorme), que em matéria de sangria concorre com o "xime xuga". Isso sem falar dos mosquitos e dos carrapatos...

Nos dirigimos então à moitinha onde havíamos escondido nossas roupas. Rebuscamos tudo. Nada. Destrinchamos os arredores, reviramos cada moita... nada!
Seria engraçado, não fosse trágico.

Esconderam nossas roupas, os safados...

E ali, os dois em pêlo — eu e o Tomazetti... o que fazer?
Providenciais folhas de mamoneira vieram a calhar.

Uma caminhada, imagine só, até as imediações do primeiro barraco da redondeza. Por detrás de uns arbustos, batemos palmas... e ô sorte!
Apareceu uma mulher, ufa... caridosa. Emprestou-nos uns calçõezinhos velhos — dos filhos dela, penso eu. Dias depois os devolvi, agradecendo.

Conclusão:
Com o aterramento, o setor e a comunidade perderam uma área verde com um espelho d’água maravilhoso...

sábado, 22 de janeiro de 2011

Vila Operária Goiânia

Preâmbulo

To: saulopescador@hotmail.com
Subject: Feliz 2011
Date: Wed, 29 Dec. 2010 20:13:26 +0300






Obs: suprimi o email do meu amigo Tomazzeti
                                                                                                    
      Saulo, meu irmão de paciência e de sonhos,

não tem uma só ponte que eu atravesse com águas limpas e sombra em volta que eu não me lembre de você.
Parece que foi ontem... mas já se vão quase cinquenta anos.
Ainda assim, você continua vivo nas nossas memórias.

Ah, como era bom ser criança na nossa época!
E ter sido seu amigo de infância — isso foi o maior tesouro que alguém podia ter.
E eu tive esse privilégio.

Que Deus continue iluminando os nossos dias.
Hoje, eu daria tudo pra voltar lá na Gameleira
e pescar, pelo menos, um lambari de rabo vermelho na sua companhia.

Quanta saudade.

Um abraço apertado, meu amigo.                                                                                          
                                                                                            
                                                                                                            Blogspot.com



Tomazetti, meu amigo, a paciência é uma virtude que devemos cultivar com persistência e fé. E dos sonhos, jamais devemos desistir — por mais que se distanciem ou se metamorfoseiem em roupagens diferentes.

O poço da Gameleira, a Lagoinha, o trecho em curva do Anicuns até a confluência com o Cascavel... As águas límpidas, meu amigo, continuam a correr. Os lambaris de rabo vermelho, no burburinho... A bolsa de lona sobre o barranco do remanso... A latinha com minhocas e o movimento brusco, enviesado, de um caniço de bambu... A presa prateada a voltear e revolver-se, encaminhando-se na ponta da linha para se debater nas mãos de um garoto — sob o olhar atento do outro...

Sabe, meu amigo, tudo isso vive. E vai persistir em nossas memórias.

Feliz Ano Novo, meu amigo. E que Deus ilumine sempre os nossos caminhos.


Trecho 2 – Memória de 1963:

...1963...
Ali estávamos nós, com papai. Finalmente, na casa da Vila Operária (Goiânia). Papai a trocara por nossa linda casa de Anhanguera, GO, onde nasci.

Cumpre dizer que, de lá, não viemos diretamente para cá. Moramos em Cumari, depois em Catalão, e em seguida em Palmelo — de onde, por fim, viemos de mudança.

Susto, decepção, desencanto, insegurança... Papai, penso eu, diante do quadro, sentiu uma mescla de tudo isso.
Nós, os meninos — kkkkkkkkk — pelo contrário, nos divertimos à beça explorando o quintal aberto, entulhado, coberto de mato e alastrado por aboboreiras que cresciam espontaneamente.

A casa... como chamar de casa aquele barraco de quatro cômodos em formato de L, maltratado, sem reboco, carcomido pelo tempo? Papai a trocara por nossa bela e imponente casa de Anhanguera. Trocou no pau, na confiança, sem ver — movido pela esperança na nova localização e, principalmente, pela promessa de uma educação melhor para nós.





Papai, a princípio, pensou em nos internar na FAMA — o internato mantido pela maçonaria (papai era maçom). Depois, resolveu nos deixar por uns dias na casa do Sr. Barbosa, lá na Vila Coimbra (Setor Coimbra), um de seus amigos dos tempos de Anhanguera, antigo funcionário dos Correios e também maçom. Ficamos com essa família maravilhosa por pouco tempo, mas o suficiente para deixar saudades.

Papai ajeitou as coisas como pôde e montou seu consultório (papai era dentista) na casa do Sr. Moisés, na Rua 510 — outro maçom e também amigo dos tempos de Anhanguera.

A Vila Operária (Setor Centro-Oeste), onde fomos morar, era um enclave espremido entre Campinas (a Campininha), o Setor dos Funcionários, a Fama e o Jardim Xavier. Segundo os mais antigos — porque a história oficial de Goiânia, que vergonha, só fala de eventos e de políticos — aquilo tudo começou como um acampamento de trabalhadores, uma "invasão", posteriormente legalizada.

Papai nos matriculou no Colégio Estadual Damiana da Cunha — nome dado em homenagem a uma índia importante e... desconhecida (pesquisei, e aposto que nem a diretora atual sabe disso! kkkkkk). “Lá no ovinho” — chamamos assim, eu e minha filha, por causa do espaço miííídio kkkkkk... Na hora do recreio, o “fazer a gata parir” era inevitável (brincadeira nossa, de criança mesmo).

Foi no Damiana que conheci o Tomazetti — um garoto meio marrento, descendente de italianos, que morava na Rua do Comércio com a família. O pai, Sr. Ângelo, mantinha uma marcenaria ao lado da casa e, junto com os filhos mais velhos, se dedicava a recuperar — ou melhor, praticamente reconstruir — carrocerias de caminhão. Era comum vê-las erguidas sobre engradados em frente à casa.

Estudávamos na mesma sala. Um dia, ele nos surpreendeu — e como! A professora pediu que algum de nós fosse à frente cantar... qualquer coisa. Pegou todo mundo no contra pé. Um olhava pro outro dizendo: “Vai você!”... “Eeeeu? Nãão!”

E, de repente, o Tomazetti levanta, estufa o peito e sapeca:
— Katariii... Katari...
Uma música italiana! Que coragem... Achei o máximo.
Daí pra frente, nos tornamos inseparáveis.

..Tínhamos em comum o gosto por pescarias e pela vadiagem nas beiras de córregos. Tornamo-nos frequentadores assíduos de uma faixa de terra logo acima do encontro do Córrego Cascavel com o Anicuns — ali onde hoje fica a Vila São Paulo. Naquela época, era uma bifurcação, um verdadeiro santuário.

O Cascavel, por sua vez, já dava sinais de poluição por esgotos residenciais. Apresentava uma concentração exagerada de lambaris — acredito que por causa dos detritos (ainda não letais) que, de certo modo, serviam de alimentação pra eles.
kkkkkkk (depois a gente ainda comia os bichinhos... eca!)

Já o Anicuns, em boas condições por conta do seu curso mais limpo, era o nosso preferido.
Sinuoso, cheio de remansos e corredeiras, com a mata ciliar ainda em perfeito estado... foi palco das nossas saudosas, infantis e maravilhosas pescarias.

Evando F Lopes

A tarefa de arrancar minhocas, claro, sobrava pra mim kkkkkkk. Eu, como o mais novo, aff...

Mas havia uma atenuante: era com uma das facas do Tomazetti. Ele tinha duas — daquelas com cabo de osso e costa serrilhada. E uma bolsa de lona que me encantava — tanto a bolsa quanto o conteúdo.

Lá dentro: carretéis de linha de bitolas variadas, chumbadas e anzóis acondicionados num tubinho desses tipo Cebion... e as facas — de cabo de osso!

Além disso, tinha ainda o cinto com a flor-de-lis na fivela, um cantil...
E eu?
Eu não tinha nada. Absolutamente nada.

Foi o Tomazette que me ensinou a tirar o mandi chorão do anzol sem quebrar os ferrões.
Era assim: a gente colocava um dedo por baixo de um dos ferrões e o outro dedo por cima do outro. Desse jeito, imobilizava o bicho direitinho.

Foi ele também que me ensinou o remédio pras espetaduras — se é que dá pra chamar de remédio.

Aconteceu assim: pescávamos depois de uma chuva, em água barrenta. Era um chorão atrás do outro. Tirávamos do anzol sem quebrar os ferrões e íamos jogando eles, ainda saltitantes, numa beirada de barranco, ali atrás da gente.

Eu, descalço, claro. Não deu outra: um passo pra trás e... pronto.
Fiquei ali, feito um saci doído, com um chorão pregado na sola do pé. Uiiii...

O Tomazette, sem pensar duas vezes, receitou logo a cura. E como eu não tava em condições de aplicar sozinho, ele mesmo ministrou: mijou no meu pé.

Adotei o tratamento. Usei uma infinidade de vezes depois — repassando, a “fórmula”.





(continua)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Dia de sorte

Saulo

 Evandro F Lopes

     www.visitarcostaric

 Aguas Emendadas-Educação Ambiental...
Ô Lagoão! Lagoa bonita... No coração do Brasil
A brisa que balouça o junco e as águas eriça
Extrapola de circuitos e  minha alma  agita...





blogspot.com



...


                              aguasemendadas
Puxa me parece que nesta foto onde se vêem dois buritis, na parte de baixo a direita, sombreadas
aparecem duas trairas uma maior e outra menor isto se não me engano 
EBC
                                                                                                                                                                                                                                                                                                
                           
Graças a Deus a lagoa bonita é hoje parte da Reserva Biológica de Águas emendadas e consequentemente
protegida por leis ambientais e vigiada 24h por dia por policiais da CIA de Polícia Ambiental do DF. Portanto tanto a pesca como passeios e visitas estão proibidas.

                                                                                                                 

Era uma vez...
Como das tantas outras em que, a certa altura do trilheiro que percorríamos, a Lagoa Bonita (em arredores de Planaltina-DF) se descortinava — filtrada por carvoeiros, pequizeiros e outras árvores do cerrado — e, à medida que nos aproximávamos, embevecendo nossos olhos, crescia...

Caminhávamos pela orla até certo ponto e então adentrávamos o cebolão, aqui e acolá atolando, com  água subindo pelos joelhos, até o locais em que, por causa de vândalos, afundávamos a canoa. Daí a resgatávamos, a esvaziávamos, depois colocávamos dentro os nossos apetrechos e subíamos.

Nesse dia, tomamos o rumo dos buritis, no vazante da lagoa. Eu, o João “Batista”, o “Nobré” Josué e seu irmão, o “Pelicano” — o “Pelica” Levi (já falecido)...

Por diversas vezes paramos, sempre fincando o varejão (aquele varão de madeira que usávamos para amarrar a canoa). Sempre na orla de clareiras (muitas, em meio ao cebolão que recobria praticamente toda a lagoa)... Inicialmente, pescamos piabas, que usávamos como isca — isto antes que se introduzissem tucunarés na lagoa, acabando com elas...

As águas eram transparentes, límpidas, e o fundo recoberto por espessa camada de lodo, aqui e acolá fragmentado... Quando havia calmaria, dava para observar as traíras surgindo do lodo, atraídas pela isca em movimento. Abocanhavam-na e se deslocavam com a linha — era o momento de fisgar.

O centro das clareiras era livre do lodo. Encontrávamos, quase sempre nesses lugares, peixes intrigantes — geralmente dois, pairando sobre locas no fundo. Eram enormes, arredondados, tinham na cauda uma pinta negra, assemelhando-se a tilápias, mas não eram tucunarés. Atiçávamo-los com as iscas em movimento. Eles as volteavam, ensaiando botes, mas nunca abocanhavam... Perdíamos um bom tempo com eles, sempre.

Saciados, com um mexido compactado em latas de óleo vazias, piabas cortadas e preparadas como isca. Tempo bom. Leve brisa soprando... Deslocamos, agora rumo ao montante, parando aqui e acolá, pescando... O sol descambava quando decidimos pelo caminho da volta, sempre fisgando traíras e pirambebas.

Trazíamos conosco caniços, estilingues e embornal. Eu, um caniço médio de bambu, improvisado, e outro menor, de pindaíba, também improvisado, que atravessava a canoa — o de espera.

Noite alta. Na orla de uma clareira, já próximos da margem, quase saindo... Última paradinha. Fincamos o varejão, amarramos a canoa e depois jogamos as linhas... Pingamos, negaceamos, batemos, chamamos... (Existe um ritual na pesca de traíras).

Fiz com o caniço menor alguns arremessos, atravessando-o novamente sobre a canoa de espera, e voltando ao caniço principal. Senti o pesar por duas vezes, depois um leve estímulo... correr. Algumas traíras foram fisgadas, e meus companheiros, outras tantas. Voltei a atenção para o caniço menor, repeti o ritual — atravessando-o novamente de espera e retornando ao principal — quando o caniço menor literalmente saltou, submergiu e reapareceu mais à frente, em meio à clareira...

Hipnotizados pela cena, em frenesi, arrebentamos os cordões que nos prendiam com a canoa no varejão e partimos no encalço. Alguns com as mãos servindo de remo... O caniço afundava e logo reaparecia mais à frente, sempre na direção do cebolão, e a gente na batida... Quando finalmente alcançamos, eu o apanhei, segurando fortemente... Senti os puxavancos, a ponta do caniço emborcava perigosamente, afundando...

Afrouxa, Saulo, a linha!
Pooorraaa... o cebolão!
Cuidado!

Não pude evitar. Se enroscara... Linha esticada, engarranchada, pesada, e eu aflito segurando.

Aproximamo-nos devagarinho e, com a mão, segurei a linha, fazendo-a oscilar até que se desprendeu. E depois de breve luta, o peixe, cansado, se entregou. Arrastei-o cuidadosamente e, com o devido jeito, içei para bordo... Escapuliu dentro da canoa.

Ô loléia... um trairão!

Abafamos-no, sem que com suas mandíbulas nos importássemos... Era enorme, escorregadio, lindo. Um trairão! Não dava para abarcar com as mãos. Todos queriam tocá-lo, medir, sopezar, admirá-lo...

Noite alta, clara... Depois, em meio ao cebolão, à margem, afundamos a canoa novamente e pegamos o trilheiro de volta pra casa. Caniços na mão, embornais pesando, satisfeitos, orgulhosos, tagarelando sobre a estrela do dia — a estrela do dia, como não poderia deixar de ser, e que, do embornal, a pedidos, volta e meia saía...

E quando saía, propostas choviam:

Dou meu caniço!
O "lingo"! (estilingue)
Os peixes!
Nããão... Neeem... nada. Quero não.

E naquele rústico embornal, feito com pedaços de lona, à mão, emborcada e prensada, prensando e pesando no ombro e na autoestima... fascinava, eclipsava coadjuvantes:
um orgulho de menino.



       www.ibico aradetod
energuaviare.com

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Condução

Cenas do cotidiano

Elaborando
Cenário
.
olivre.com.br

Ponto de ônibus

... Hora um, hora outro, em pé, sentados,ou alentando se, percrustra o horizonte, na esperança do Buzú, um vislumbre — desse, perene ingrediente das suas demandas e  desconfortos. E quando ele desponta, elas se agitam e vão se espremendo: “Uiiiii, meu pé!”, em busca de um lugarzinho estratégico. Ele chega, repleto, vai encostando e abrindo as portas, que pessoas disputam como se fossem do céu.

Um por um, a catraca recepciona o passe livre para quem o tem, ou o antecipadamente adquirido, Sit pass — esse é o salvo-conduto. Quem não pôde adquirir nessas condições fica no canto, retido, atrapalhado e atrapalhando, ali com o dinheiro na mão e esperançoso de que alguém disponibilize uma unidade.

... Assentos ocupados vão se comprimindo pelo corredor, e — olha a gominha, três por um real... Ambulantes entram em cena, o áudio fica interessante... “Melzinho com própolis, bom pra tosse, bronquite e rouquidão, dois real a caixinha, três caixinhas por cinco real...” “Moço, desencosta...” (Voz de mulher) “Olha a massinha colorida” (com uma nas mãos amassando) — “Desenvolve a criatividade do seu filho e toma as mais diversas formas. Todas têm olhinhos que piscam...” Faz um bonequinho e o exibe — o curioso é que fica a cara dele.

Outro solicita atenção, levanta a camisa, exibindo um recipiente colado ao corpo contendo suas vísceras (abre-se uma clareira, como não sei) e faz um apelo carregado de religiosidade que culmina com o oferecimento de canetas por um real... Pessoas compram, e eu também, compungido.

“Moço, desencosta” (voz de mulher) “Apupos e trocadilhos... olha a gominha...” “Freggeeeels” (voz) — “Moço, dá o lugar pra este senhor...” Um jovem levanta, relutante, e o idoso assenta... Menino passa distribuindo papeizinhos amarrotados e depois volta recolhendo, alguns com moedas...

Na roleta, mulher passa filho deficiente e, quando chega sua vez, o cartão trava. Ela fala com o motorista, e este se mostra irredutível... começa um bate-boca. Ela esbraveja, chora... Alguém do outro lado ampara o menino desnorteado... outro libera a mulher com unidade do próprio uso... Impropérios ressoam — contra o motorista, a empresa, o governo...

“Barulho metálico” — é uma sacola que cai... pessoas se afastam, salpicadas... e no piso, em meio ao arroz, feijão e tomate esparramados, destaca-se um ovo estrelado... rapidamente um jovem se abaixa e recolhe. Espocam chacotas e condolências...

O terminal, ufaaa...finalmente...

blogspot.com




O ônibus circula, adentra o terminal e, na vaga correspondente, abre suas portas... As pessoas, meio que esbaforidas, vão se espremendo e como que espirradas, saindo...

— Moça a sua bolsa tá aberta... 

— Meu Deus, minha carteira... acontece, por vezes...