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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 5



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...Primeira igreja de Brasília repare no estado já em abandono, tinha um coreto do lado, era freqüentada e amada pelo povo...
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CAPÍTULO 5: O Suor da Infância, as Fronteiras Invisíveis e os "Rocks" da Candanga
Além de jogar bola e brincar, eu trabalhava — e como! Enchia tambores com água, engraxava sapatos nos postos de gasolina da BR e em vários alojamentos da Velha Cap e da Candangolândia. Também coletava sucata pelos acampamentos e vendia jornais na Asa Sul. No tempo que sobrava, eu pescava. Às vezes ia acompanhado do meu irmão e do Tamiro (Altamir); outras vezes, com o Augustinho, o nosso "Agustín".
Nós tracejávamos a mata do Jardim, desbravávamos os fundos do Núcleo Bandeirante e a ponta do Lago Paranoá na Asa Sul. Volta e meia topávamos de frente com os guardas do Zoológico — e aí era aquela correria desenfreada pela mata! "Cará" e tilápia tinham a dar com pau naquelas águas.
Havia duas entradas principais de acesso à Velha Cap e à Candangolândia através da rodovia dos postos. A transversal de cima adentrava entre o campo do Guará e o cerradinho, onde ficava o campinho de várzea em que jogávamos nossas peladas. A outra entrada, localizada mais abaixo, era asfaltada e passava bem à direita da rua em que moravam a professora Alcione, o colega de escola Zé Fernandes e onde também diziam ter residido o célebre engenheiro Bernardo Sayão. Um dos meus locais favoritos de folguedo na mata ficava um pouco abaixo dali, composto por pequenas lagoas formadas entre a vegetação. Na altura da pensão da dona Lourdes, também naquela baixada, encontravam-se o Juizado de Menores, alguns alojamentos operários e o temido presídio da "Rua do Sossego".
Fronteiras Invisíveis e Risadas de Sala de Aula
A impressão nítida que se tinha na época era de que os funcionários moradores da Velha Cap, no geral, pertenciam a escalões mais modestos em relação ao pessoal que habitava a Candangolândia. Por conta dessa sutil barreira social, a molecada dos dois lados pouco se misturava espontaneamente.
Eu, porém, quebrava essa regra e me dava muito bem com boa parte deles, especialmente com os garotos do time de futebol. Na sala de aula, por exemplo, o Vicente Batinga e eu éramos uma peça: não podíamos sequer olhar um para a cara do outro enquanto líamos a lição que logo caíamos na gargalhada, para desespero da professora.
Um dia, fui visitá-lo em sua casa. O barraco dele ficava bem nos fundos da Candangolândia, na beira do córrego. Aproveitei a visita e o ajudei em uma de suas ocasionais tarefas domésticas: buscar lenha em um cerradinho que ficava logo do outro lado da margem.
Também conhecia o Beto Veloso (irmão do Lúcio e do Gilsim) e o Zé Geraldo. Trombava ocasionalmente pelas ruas com o Nito e com o Dedé, seu irmão que infelizmente já é falecido. Também via com frequência o João Batista e o Fernando, seu irmão. Eles moravam na "Gurutuba", uma ruazinha com pouquíssimos barracos situada bem na beira da mata, colada ao Zoológico. Com o tempo, aqueles meninos tornaram-se meus grandes e inseparáveis amigos.
A Primeira Igreja e as Ruas de "Rock"
Na Candangolândia ficava a famosa igrejinha de madeira com seu coreto — a Paróquia São José Operário, reconhecida historicamente como a primeira igreja de Brasília. Ela era o coração da comunidade, frequentada e profundamente amada pelo povo trabalhador. Próximo a ela ficavam também a primeira delegacia da nova capital, diversos alojamentos da Novacap e a imponente "Rua dos Engenheiros", onde moravam os filhos metidos das chefias. [1, 2]
Havia também uma área comercial que todos chamávamos carinhosamente de "Rua das Lojinhas". As vias residenciais eram organizadas de forma técnica pela administração: Rua A1, A2, A3 e assim por diante. Porém, os garotos mais cheios de pose da Candangolândia decidiram rebatizá-las à moda da época, chamando as quadras de "Rock 1", "Rock 2" e "Rock 3". E não é que a mania pegou na boca de todo mundo?