terça-feira, 30 de março de 2010

O canto da terra 4

Deixemos a bela e acolhedora metrópole “ecologicamente correta”,
com suas belas avenidas e ônibus superlotados,
e reportemos à nossa bucólica e querida Vila Boa...

Espécie de ego comum,
tributar-se-á à Vila Boa
do emocional de cada um,
de cada psico-Cidadela...
em matizes de areias...
pegadas e aquarelas...
da matéria do sertão...
no cinzel de Veiga Valle,
arte, sopro, emoção...

Ponto de convergência
é a casa da ponte...
absorve com ciência...
do coração da poetisa...
apurado no tacho...
onde tudo sintetiza...
de ruas e das vielas...
dos ecos no dia a dia
sussurrados sob a ponte...
murmurando Poesia...

Rompido de corações
e testado na desventura,
o sentimento cidadão,
cidade comunidade,
concertado na comoção,
rompera da cidadela,
extrapolara o sertão,
adensando no trajeto
opiniões e fragmentos...
no esboço do projeto,
resultado da coletânea
de um esforço coletivo,
de maneira espontânea...
uma doação sincera...
do azulejo do sobrado
ao chão batido da tapera.

Rebrotada da poesia,
burilada no sertão,
Vila Boa renascida
da feliz interação.
Cidade comunidade
configura patrimônio
pra toda humanidade.

Repercute da televisão
um festival que fica...
destilando cultura
e atraindo turistas,
enquanto se festeja
um alerta, quem sabe,
da própria natureza,
e o saldo da inundação
que depredou o cenário
na pluvial precipitação,
um sonho fragmentado...
caco a caco colado,
a solidariedade juntara,
e a cruz do Anhanguera
ao pedestal retornara...
apontasse contradição...
soaria deselegante...
após a reconstrução...
depreciar um território
de ninhos e de tocas...
de nascentes, voçorocas...
encontrasse eu motivo...
que lograsse penetrar...
o inconsciente coletivo...
na auditiva sugestão
de um ranger na madeira,
despertasse a atenção...
oxalá isto comovesse...
E a sorte do desvalido...
despertasse o interesse...
e apoio ao desajustado,
mãos se estendessem...
de tratados então rompesse
o princípio da igualdade,
amalgamando na diversidade...
um patrimônio, solidariedade...

Grupo de bóias-frias, envolvido pela neblina,
à espera de condução... cena comum no interior do país...

O despejo da diversidade
em prol da monocultura
potencia desigualdades,
a ciranda da concentração
sob a égide do latifúndio
sacramenta a exploração.
Aduba o êxodo rural...
e o futuro na educação...
é argumento definitivo...

Portanto, dos pertences apurado,
e o resto no caminhão aboletado...
sacoleja-se agora a família...
mais uma do campo rumo à periferia.

A esteira do caminhão...
uma poeira de estrada...
na despedida do sertão...
escoa doce e sagrada...
escoando um rincão...
embaciando olhares...
argamassando no pranto...
impregnando pesares...
semeiando em barranco...
um desses da periferia,
uma família do campo
a colher necessidades
e amargar no desemprego,
um bico e a boa vontade
configura no contexto...
a necessidade do pão...
aproximando rejeitos...
um destino... o lixão...

Epílogo 1

Sob o filete tênue de fumaça que serpenteia esmaecendo...
o naco de carvão acaba por extinguir-se, desintegrando...
Final de ato...
os fantasmas envoltos em fuligem vão se recolhendo,
e o cenário agora parece acomodar-se,
entregue às moscas e ao companheiro Totó...
num canto, com a pança estufada,
e a vaguear por brumas etílicas,
o churrasqueiro dormita esparramado numa rede...

Epílogo 2

Sobre o caixote improvisado de mesa
e em meio a restos do "churrasquinho de gato",
uma garrafa vazia, um copo por terminar
e um esboço sofrível fermentam
sob improvisadas cortinas
que se revolvem na janela do cortiço.



O canto da terra 3

(Sendo trabalhado)

... Basta de se encher lingüiça e vamos enfim  aos fatos...

com a palavra o naco...sim um grande naco de carvão !!!

(Esclarecimento) O texto procura refletir embora pobremente sobre parte da História de Goiás,foi escrito a muito tempo e em muitos aspectos deixa a desejar ...Vale pela imaginação.

.O canto do tabocal 3

Com a palavra um naco de carvão

De pleno voo eu despencara
em vertiginosa queda...
do bico de uma arara...
salivado e em frangalhos,
insepulto eu germinara...
de casulo entranhado...
lá no interior de Goiás...
no bioma do cerrado...
o recanto agregava...
o cerrado florescia...
Prenúncio de doação...
odor, textura e magia...

Bico a bico me espalhando,
naveguei por intempéries,
entranhado pelo âmago,
palmilhei todo o sertão...
de estômago a estômago...
varei rios e traspus serras,
semeei por vales e campinas
e pactuei com filhos da terra.

...Fim de ato... desce o pano...


Cenário

...Beira de rio... uma clareira...

Personagens

...Índios e homens rústicos e um prato com aguardente...

O vento sopra nas palmeiras,
e no farfalhar de folhas, uma algazarra de pássaros
saúda um sol que brota da serra
e rasga a névoa...

As cortinas se abrem,
introduz-se o inusitado,
traz na bacia um blefe...
nunca visto no cerrado,
rouba a cena, alucina,
espalha, consome o rio,
entorpece nas retinas,
embriaga e incinera
na lagoa que calcina,
na taba que depaupera,
no índio que cambaleia:
Anhanguera... Anhanguera.

No torvelinho campeia
brilho torvo, faiscante,
movimento de bateias
nos olhos do bandeirante...
vi o índio subjugado,
evadir-se de momento,
embrenhando no cerrado.

Com negros ficou a bateia,
e com os senhores a terra.
Tronco, açoite, cadeias,
na senzala ficou o negro;
o senhor, na casa grande,
o privilégio e o degredo
extrapolam gerações,
recrudecem, reacionam
na cidade e no sertão.

O pobre eu vi na lida...
argamassar desigualdade...
na qualidade de vida...
vi proliferarem arraiais,
e Vila Boa consolidar-se
na capital de Goiás...

Vi notável comissão
registrar no diário...
excelente impressão
sobre o planalto central,
pra se plantar no sertão...
a pedra fundamental...
e brotar selva de pedra
no lugar do vegetal.

Vi uma lei que abolia...
proclamar a república,
detonando a monarquia.
Vi perderem-se os anéis,
e os dedos sobrarem
nas mãos dos coronéis.
Vi o coração imigrante
aportando anarquia...
itinerarem-se ideais...
esboços de democracia...

Vi o privilégio reacionário,
nutrido da corrupção...
mudando de lado
pra manter a posição,
postergar a esperança,
promovendo eleição
em currais eleitorais.
Costurar-se a solução,
e de alhos para bugalhos
perpetrar-se a transição...
e qualquer constrangimento
que desandasse em furdunço
acionar-se um regimento...
ou bacamartes de jagunço...

Vi informes inquietantes
ventilando das gerais...
carregando semblantes,
atordoando maiorais...
rumores de revolução
correrem a boca pequena...
e alarmarem o sertão,
ocorrência de Rio Verde
falando de detenção,
alegrar os maiorais,
provocar descontração,
e novas de Santa Luzia...
alvoroçar a multidão.

Pra sanar o mal do sertão,
designarem um médico,
a necessária operação,
e o efeito talvez colateral
somatizou como desfeita,
e esta mudança capital
permeou-se de contendas,
revoltando, polemizando
da tribuna ao balcão de venda.

(rascunho sob revisão em andamento)

Sob este fogo cruzado,
campinas se sacrifica,
imola o seu passado
e a própria soberania.
Sementes da história
germinham de corações,
abrolham da memória,
renovam nas tradições...
rebrotam um coreto...
reportam uma história...

Vi Goiânia distinguir
e o grande potencial
de toda a parte atrair,
convergir esperança,
polarizar sonhos...
projetar mudanças,
tornar-se cartão postal,
transmutar-se metrópole,
e ocultar um grande mal:
síndrome do progresso...
seria efeito colateral...
e debaixo dos narizes
o mau cheiro é natural...
a desoladora podridão
dos córregos da capital...
a estação de tratamento
celebraria a vida...
abrandaria o constrangimento
de uma outorga indevida...



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segunda-feira, 29 de março de 2010

O canto da terra 2

O canto da terra 2

Na carvoaria, as muitas bocas, com avidez, vão engolindo assimétricos personagens da flora, que se contorce, expressando formas de rara e rústica beleza e que, de certo modo, vão se confundindo com os vultos enegrecidos que, naqueles fornos, encerram o próprio destino.

Escolhera o progresso
um símbolo da fauna
pra cobrança do ingresso.

Foi eleito um leão,
o oficial provador...
das rendas do cidadão.

Causando certo desgosto,
os apetites desta mascote
das rendas tomara gosto.

Doendo muito no bolso,
as mordidas do leão
denominadas imposto.

Para acinte do cidadão,
a esfaimada mascote
associou-se à má gestão.

O execrável consórcio,
para males de pecados,
concebeu o mau negócio.

Desenvolveu, na tolerância,
os frutos de uma gestação:
da corrupção e ganância.

Primogênito, o desemprego,
a ignorância e exclusão,
a insegurança e o medo.

Impõem sobre a nação
os sacrifícios,
e a corrupção corroe os benefícios.

Celebrando a ganância,
a exploração madeireira,
na Amazônia, imola a diversidade
diante da omissão nossa de cada dia...
e dos poderes constituídos.

O canto do tabocal 3

O cacique encomendou
grande olho de SIVAM
pra consorte do IBAMA
lá da corte de Tupã

Na fumaça ofuscou-se
graveto estala da chama
e o cisco incrustou-se
bem no olho do IBAMA

Areia caiu nos olhos
o Juruna proferiu...
o boto perde o charme,
é o mister M no Brasil...

Boitatá foi pra Parintins
caprichou e se garantiu
a Iara virou porta-bandeira
e o Brasil se descobriu

Saci virou um biscateiro
vira-se agora nos trinta
sambando o dia inteiro,
a SUDAM não assistia

A sombra da madeira empilhada
entre gracejos e protestos,
operários comem, contam causos,
anedotas... e depois cochilam...

Um menino retira
um arremedo de flauta de taboca do embornal
leva à boca e, dentre imagens fugidias de sonho,
assopra de improviso...


Na escola do sertão,
à grafite da fuligem,
escreve-se a redação

O dia — a pauta estica
em morosa rotação
o sol empina feito pipa

Volteia como o pião
suor destila em bicas
mina a seiva do sertão

Aprende-se na carvoaria,
na colheita da cana...
ou no barro da olaria...

Um "ó" de obrigação,
como primeira vogal
na escola do sertão...

Sentido de sobrevivência
é o quesito principal
que devora adolescências...

A educação é herança
que o pobre deseja legar —
é espólio de confiança

O sentimento paterno...
a consciência fustiga...
o lápis, livro, caderno...

A projeção do caminho
aponta uma periferia...
na mudança de destino

Virar-se no desemprego...
evitar os descaminhos...
mourejar no subemprego...

Servente de pedreiro...
coletor de reciclável...
ocasional biscateiro...

Matrícula-se o menino...
e nos progressos do filho,
olvida-se o seu destino...

E o menino se esforça —
engraxa parte do dia,
estuda e tem boas notas...

O vestibular é a fechadura...
o diploma do ensino médio,
a chave da formatura...

Nos portais da faculdade,
a chave do ensino público
trava na incompatibilidade...

Um pé de meia na América,
a alternativa deslumbra —
e a aventura se projeta...

Da poupança da família,
da venda de cacarecos
e de partes da mobília

Arremessada uma sorte,
desembarca no México
à procura de um coiote

Acertam de tal maneira —
dentro do porta-malas,
a passagem da fronteira

O deserto e a travessia,
um momento de bobeira,
e o menino se extravia...

Entregue à própria sorte,
o menino perambula,
aos gritos chama o coiote

O deserto é um forno,
o delírio é o pico...
na miragem do retorno

Um menino calcinado...
reencontra na carvoaria
o destino do cerrado...

E se cumpre um ditado:
nasce torto, morre torto...
esquecido e devorado...

O canto da terra 1


                        (Introdução)


                         O canto do tabocal





Parte 1


Saulo

...Mil e uma tentativas... abanadelas sem conta... estalidos... e enfim crepita — azul, laranja, carmim — a pequenina chama bruxuleante...
Fustigada, ela logo se agita, sob um olhar marejado, defumado, de improvisado churrasqueiro.

O lacrimejante "herói" aconchega pedaços de carvão à gema incandescente, estabelecendo um cerco. Chama-lhe a atenção um naco maior de carvão — ele o apanha e o equilibra no topo, cuidadosamente. E enquanto abana, devaneia...

Imagine que, no devanear, fosse transportado a um ponto qualquer do cerrado, do Brasil central — e de tal modo que devaneasse, a leseira toda fosse escapando, espraiando-se, derivando... até emaranhar-se num tabocal das redondezas...




O canto do tabocal

Parte 2

Noite...

Um estufar dcortinas faz a introdução...

Silêncios e ruídos, com estalos e rangidos,

de um tabocal fustigado pelo vento, a contorcer-se,
estabelecendo a tônica.
...Momentos em que, sobre um travesseiro,
o inconsciente evoca imagens fugidias,
esboços que vão surgindo,
envoltos em brumas, cobertos de fuligem,
delineando-se — e, do atritar do tabocal,
como se colossais gafanhotos fora,
ressoa estranha melodia...


Da gávea de caravela...
a luneta volatiza...
o displicente passeio...
de uma íris seduzida...

Uma aquarela brejeira
arrebata as entranhas
da alma portuguesa...
a expressão lusitana

Que acaba por amorenar-se
sobre ondas espraiando
numa cadência baiana —
a expressão lusitana

Contraste na singeleza
do território dos instintos,
propriedades de substâncias
em cartório da natureza —
a expressão lusitana...

Sob a égide da ganância
auspicia-se a solenidade
na aquarela brejeira —
réquiem à diversidade...



A natureza do bioma provê a seus rebentos propriedades e necessidades para uma vida profícua e necessária, de modo a convergirem-se, em mutualismos, comensalismos etc., estabelecendo o ciclo vital de um moto perpétuo...
E, curiosamente, dentre a infinidade entrelaçada de organizações que abrolham, uma delas — e de forma inusitada —, que de códigos naturais atropela, estabelece a exploração de mais fracos...

( edição, continua)



Cenário

Uma carvoaria no cerrado goiano.


Personagens

Madeira empilhada, sacas com carvão, cavacos, lascas e fragmentos. Homens tisnados e crianças obscurecidas.


Áudio

Emanada da servidão, uma cantilena ressoa...
Dor e revolta condensam-se no compasso...
A cada estrofe, um lamento ecoa... contido,  insubmisso...


O tempo é um forno...
oleiro, o movimento...
(um cavaco)

A consciência na roda...
amolda o sentimento...
(outro cavaco)


Nas razões do forno, a ambição predomina...
nas velocidades do torno, o descaso determina...
(a sacaria)


A bigorna é o tempo...
o ferreiro, movimento...
(o primeiro)

A consciência na forja...
aprimora o sentimento...
(o outro)


Egoísmo com ganância tiveram um caso...
brotaram os descasos...
(a sacaria)


O tempo é a página...
o acaso, o tinteiro...
(o primeiro)
o movimento, a pena...
encena a coerência...
(o outro)


A cupidez decreta a insolvência...
a insensatez penhora a sobrevivência...
(a sacaria)


Sintetiza o sofrimento a seiva...
(o primeiro)
suores destilam o lucro...
(o outro)
dividendos apuram os capitais...
(o primeiro)
os operários, a sobrevivência...
(o outro)


O tempo é indústria da reciclagem,
e o universo, uma grande viagem...
(a sacaria)

A canoa é o tempo...
canoeiro, o movimento...
(o primeiro)

No acaso, rima o remo...
na coerência, o ensejo...
(o outro)


O carvão oprimido cristaliza...
e em cadinhos, a alma purifica...
(a sacaria)


Fragmento e Seixo

Feitos siameses, um no outro engastados,
fragmento e seixo em dueto anelado...


Alfa assoprou... in... iang
enfeixou-se o movimento...
percorreu a espiral de sendas,
e a gravidade engendrou-se...
(fragmento)

A gravidade ergueu o pêndulo,
o pêndulo embicou no acaso,
o acaso enredou-se em coerência...
(seixo)

A coerência planeou o formato,
o formato cinzelou o sedimento,
o sedimento incorporou a dualidade...

A dualidade transmutou-se na reatividade,
a reatividade polarizou no instinto,
o instinto entronizou a consciência...
(seixo)

A consciência manifestou a divindade,
a divindade revelou-se nos arcanos,
os arcanos reportaram ao verbo,
e o verbo detonou o Big Bang...
(fragmento)


Do bico do pássaro, o inseto escapa,
e o fragor desesperado no entardecer ressoa,
até paralisar-se numa das redes que alimentam o tráfico...


O passarinho, numa forquilha, tecia o ninho,
voando com alegria — gravetos e fiapinhos...
o passarinho trazia...


Certa manhã... Sobressalto.
Ruído estranho... estrugia.
O campo, tomado de assalto...
Tombava, não resistia...


Ao lado da árvore caída,
um ninho, despedaçado...
e o conteúdo, em fragmentos, jazia...