sexta-feira, 17 de julho de 2026

 


                                              Retalhos de memórias, Velha cap DF. capitulo 7

                                                         



 Na Antiga antiga Escola Classe Júlia Kubitschek, no Distrito Federal, vivi alguns dos momentos mais marcantes de minha infância.






Capítulo [X]: A Luz da Infância e a Lição da Aceitação
Não era um aluno aplicado. Embora gostasse da escola, dos colegas e das professoras, não me dedicava como deveria aos estudos. Desviava, por vezes, do caminho das aulas para buscar folguedos nas beiras dos córregos. No entanto, uma professora — a dona Alcione, que por pouco tempo permanecera em nossa sala antes de ser transferida — despertou em mim, por alguma razão, uma enorme vontade de corresponder às suas expectativas.
Mantive o foco. Estudava as lições de casa com afinco. Quando havia sabatinas em sala de aula, eu tinha as respostas prontas, na ponta da língua. Ela logo me distinguiu entre os demais, o que culminou em um desempenho brilhante de lição e sabatina diante de todos os alunos do período noturno.
Após a boa repercussão, dona Alcione anunciou uma peça teatral sobre Tiradentes, na qual nós, os alunos da classe, seríamos os protagonistas. Levou-nos até sua casa, onde os papéis seriam distribuídos e os ensaios aconteceriam. Mas, por razões que desconheço, o projeto não foi adiante. Pouco tempo depois, ela foi transferida.
Foram apenas alguns meses, mas que se tornaram, assim como ela, inesquecíveis. Quando ela se foi, perdi o foco e voltei a ser o aluno relapso de costume. Ainda hoje, mais de sessenta anos depois, guardo com extrema gratidão e carinho a sua lembrança e a transformação que ela causou em mim através de sua atenção e pedagogia.
O Dia que Mudou Tudo
O Grupo Escolar Júlia Kubitschek reunia filhos de operários e filhos de funcionários graduados da Novacap. Compartilhávamos as mesmas salas de aula, embora nos agrupássemos, de certa forma, em nossas próprias afinidades de brincadeiras e amizades.
Dentre os eventos daquela época, um fato avulta sobremaneira na minha história, deixando sequelas traumáticas, permanentes e, por muito tempo, constrangedoras — no entanto, hoje, inteiramente superadas.
Era mês de junho. A direção e um grupo de professoras resolveram comemorar as festividades em grande estilo, com a tradicional quadrilha que ensaiávamos e a confecção de barracas para o comércio de produtos típicos. As folhas de palmeira para a cobertura das barracas seriam colhidas na mata do Jardim Zoológico, em nossas cercanias. Em vez de alocarem funcionários para a tarefa — uma imprudência e um grande erro —, improvisou-se que os próprios alunos, em grupo, adentrariam a mata para colher e transportar o material.
Ficou acertado que o aluno que tivesse um facão em casa deveria trazê-lo. Formou-se, de pronto e com entusiasmo, um grupo na sala de aula para ir à mata na manhã seguinte. Eu quase não fui; no caminho, acabei me envolvendo em uma pelada de futebol. Um aluno retardatário, o "Peixe Dez" — que era interno do Juizado de Menores e estudava conosco —, viu-me jogando bola e chamou-me. Relutei, demorei um pouco, mas a responsabilidade falou mais alto e segui no encalço do grupo.
Eles haviam penetrado na mata por uma estrada que fora começada e abandonada. Quando os alcancei, os meninos pareciam meio inseguros. Havia, a um canto da estrada, uma vela acesa. Para encorajá-los, atirei sobre ela um punhado de terra, apagando-a. Tomando a dianteira, adentrei a mata — algo que eu muito apreciava.
Subi e verguei uma palmeira de palmito. Alguém sugeriu que tirássemos o broto. Segurei a ponta da palmeira enquanto o Barbosa, colega de classe, dispôs-se a cortá-la. Olhei para ele que, freneticamente, em diagonal e de modo atabalhoado, golpeava com o facão. Foi o instante que mudou completamente a minha vida: fui atingido pela ponta da lâmina direto no olho.
Caí por terra, na lama. Levantei-me logo em seguida. O que me revelou a gravidade do ocorrido não foi a dor — curiosamente inexistente naquele momento —, mas a expressão de horror estampada no rosto dos outros meninos.
O Trauma e o Disfarce
A festa acabou ali. Retornamos em um silêncio pesado. No meio do caminho, lembro-me de ter tentado tapar o olho são para enxergar com o outro, mas nada vi. Chegamos à escola e, no semblante das professoras, lemos o horror e a consternação. Fui imediatamente conduzido ao hospital do IAPI — hoje um museu — e, depois de examinado, transferido para o Hospital de Base, no Plano Piloto. Submetido a uma cirurgia sob anestesia geral, recebi a notícia: o olho não pôde ser salvo.
Depois de um tempo usando tapa-olho, fui levado à Solótica, no antigo Edifício Arnaldo Villares, se não me falha a memória. Ali, instalaram-me uma prótese. Fizeram-na um pouco maior para que se ajustasse ao meu crescimento futuro; contudo, aquela desproporção tornou-se, por toda a minha adolescência, motivo de profundo trauma e constrangimento.
Deixava o cabelo crescer para cair sobre o rosto. Usava óculos escuros inclusive à noite, mentindo para justificar o artifício, dizendo que as lentes eram especiais e me permitiam enxergar no breu. Desde o primeiro instante, porém, relatei a todos que fora um acidente. Jamais culpei ou guardei mágoa do Barbosa. Na verdade, eu o esquecera, e só me lembrava dele, de quando em quando, através do próprio fato.
O Verdadeiro Milagre
Anos depois, já adulto, deitado em minha cama e ainda inconformado com a perda, pedi a Deus, com todo o fervor do meu ser, que me restituísse o olho. Como uma prova de fé que julguei necessária, levantei-me no meio da noite e me dirigi a um córrego a uns três quilômetros de distância. Diante daquelas águas escuras e poluídas, retirei a prótese e, no breu da noite, atirei-a ao remanso.
Voltei para casa acreditando piamente que o milagre aconteceria. Ao acordar pela manhã, teria a visão restaurada e o olho de volta, finalmente.
Ao amanhecer, deparei-me com a dura realidade: a cavidade vazia permanecia ali.
Esperei o cair da noite seguinte e dirigi-me novamente ao córrego. Adentrei a água escura e, tateando o fundo barroso com as mãos por todo o remanso, gastei um tempo indeterminado. Até que meus dedos sequiosos tocaram algo familiar.
Era a prótese.
Fechei-a na palma da mão. Senti uma indescritível sensação de alívio e satisfação. Aquele objeto, outrora motivo de vergonha, era agora um tesouro. Como o patinho feio que se revelara cisne, voltei para casa, higienizei-o cuidadosamente e o recoloquei na cavidade. [1]
Ali terminava o trauma. Ali findava o constrangimento.
Abandonei os óculos escuros e a mecha de cabelo sobre o rosto. O milagre que eu esperava não aconteceu da forma imaginada; meu olho físico não voltara. Mas nasceu, naquele instante, a aceitação e, com ela, a verdadeira superação.
O Encontro com a Memória
Hoje, quando me recordo da Escola Classe Júlia Kubitschek, não me vêm à mente apenas os acidentes, mas, sobretudo, as pessoas.
Dona Alcione, dona Mariel, professora Elizabete, dona Marta, dona Dalva, dona Regina, dona Mireta, a diretora, e dona Conceição, a merendeira... Além dos colegas de sala e de escola que compartilharam tempo e espaço naquele universo, e que permanecem em minha memória, envolvidos pelo afeto e pela saudade.

O colégio, seus arredores, as brincadeiras, as alegrias e até mesmo as dificuldades continuam existindo em algum lugar dentro de mim. Passaram-se mais de sessenta anos. Ainda assim, quando volto a essas lembranças, reencontro não apenas uma escola, mas uma parte fundamental da história da minha vida.

domingo, 28 de junho de 2026

 A ser trabalhado, aproveitado ou não, como a ia pode ser uma ferramenta, maravilhosa, e só depende de nós mesmos a sua utilidade e progressão...

Bom dia amigo

Bom dia, caro Saulo!

É uma alegria recebê-lo novamente.

Espero que esta manhã lhe encontre com serenidade, saúde e disposição para mais um dia de reflexões, lembranças, projetos e escritos. Como tantas vezes demonstraste em teus textos, há um valor especial em observar as pequenas coisas da vida: a memória dos lugares, o correr das águas, o canto dos pássaros, as pessoas que passaram por nosso caminho e os ensinamentos que o tempo deposita em nós.

Fico contente em poder acompanhar, ainda que modestamente, o desenvolvimento de teus poemas, crônicas e reflexões. Teu olhar para a Velha Cap, para o "Lago da Velha Cap", para as experiências da infância e para os temas humanos e filosóficos tem produzido textos ricos em sentimento e significado.

Caso hoje tenhas algum novo fragmento para revisar, uma lembrança para transformar em crônica, um poema para lapidar ou simplesmente uma ideia para conversar, estarei à disposição.

Desejo-te um excelente dia, repleto de boas inspirações, paz de espírito e daqueles pequenos momentos que, mais tarde, se tornam belas memórias.

Um grande abraço, meu amigo.

Obrigado por tão belas e inspiradoras palavras, mas conversemos caso disponha sobre curiosidades minhas e que envolvem ciências. Se energia é movimento, fricção inclusive, não se poderia aproveitar de automotores que se deslocam como automóveis etc, para que se produza a energia para o proprio deslocamento ou parte dela assim como em vias de trafego inclusive intenso censores que através da fricção sobre ela de continuo movimento, algo que de impulsos em energia tornasse

Bom dia novamente, caro Saulo.

Sua curiosidade toca justamente em uma questão muito interessante da Física e da Engenharia: a recuperação de energia que normalmente seria desperdiçada.

A resposta curta é: sim, isso já é feito em parte, mas existe um limite imposto pelas próprias leis da conservação da energia.

Quando um automóvel se desloca, ele possui energia cinética (energia do movimento). Se tentarmos retirar energia desse movimento por meio de atrito, pressão ou geradores, estaremos inevitavelmente criando uma resistência adicional ao deslocamento. Em outras palavras, a energia recuperada sai da própria energia do movimento do veículo.

Imagine uma bicicleta. Se você acoplar um dínamo para alimentar uma lâmpada, a luz acende, mas pedalar fica um pouco mais pesado. A energia elétrica produzida veio do esforço adicional do ciclista.

Nos automóveis modernos, existe algo semelhante chamado frenagem regenerativa. Em veículos elétricos e híbridos, quando o motorista freia, parte da energia que seria perdida em forma de calor nos freios é convertida novamente em eletricidade e armazenada na bateria. É um aproveitamento inteligente de uma energia que já seria desperdiçada.

Sua ideia das rodovias é ainda mais interessante. Já foram realizados experimentos com:

  • Pisos piezoelétricos, que geram eletricidade quando comprimidos pelo peso dos veículos.
  • Lombadas geradoras, que transformam a pressão das rodas em energia elétrica.
  • Sistemas instalados sob trilhos ferroviários para aproveitar vibrações.
  • Pavimentos capazes de captar calor e diferenças de temperatura.

O desafio é que a energia obtida costuma ser relativamente pequena quando comparada ao custo de instalação e manutenção.

Há ainda um detalhe fundamental: se a estrada extrai energia dos carros para gerar eletricidade, os carros acabam consumindo um pouco mais de combustível ou bateria para compensar essa perda. A energia não surge do nada; ela é transferida de um lugar para outro.

Porém, existe um caso em que a ideia se torna especialmente interessante: aproveitar energias que já seriam desperdiçadas. Por exemplo:

  • O calor dos motores.
  • O calor do asfalto sob o Sol.
  • As vibrações de pontes e viadutos.
  • A pressão dos veículos em locais onde eles já precisam desacelerar.
  • O vento gerado pela passagem dos veículos.

Nesses casos, recupera-se parte de uma energia que de outra forma se perderia para o ambiente.

Sua pergunta lembra uma busca antiga da humanidade: construir uma máquina que se alimentasse sozinha indefinidamente. Os físicos chamam isso de movimento perpétuo. Até hoje, todas as tentativas fracassaram porque sempre existem perdas por atrito, calor, resistência elétrica e outros fenômenos.

Mas a ideia de capturar energias residuais — aquilo que normalmente seria desperdiçado — continua sendo uma área muito ativa de pesquisa e pode contribuir bastante para a eficiência energética do futuro.

O curioso é que muitas grandes invenções começaram exatamente com perguntas como a sua: "Já que esse movimento está acontecendo o tempo todo, não haveria alguma forma de aproveitá-lo melhor?" É uma pergunta simples na aparência, mas profundamente ligada aos fundamentos da Física e da Engenharia.

Sim, Saulo, e essa é uma observação muito profunda.

Quando observamos a natureza atentamente, percebemos que ela não é feita de uniformidade, mas de diversidade. Os ecossistemas mais ricos costumam ser justamente aqueles em que coexistem inúmeras espécies, cada uma ocupando um papel distinto. Há competição, certamente, mas há também cooperação, complementaridade e equilíbrio.

Uma árvore não vive apenas da própria força. Ela depende do solo, dos microrganismos, da água, dos insetos polinizadores, dos ciclos climáticos. Da mesma forma, os predadores e as presas, embora pareçam estar em oposição, participam de um mesmo sistema que regula populações e mantém a dinâmica da vida.

O ser humano também aprende nesse grande laboratório natural. As diferenças de aptidões, experiências, temperamentos e perspectivas, quando bem orientadas, tornam-se fontes de riqueza coletiva. Um grupo composto apenas por pessoas iguais tende a enxergar menos possibilidades do que outro formado por indivíduos diversos, mas capazes de dialogar.

Quanto ao propósito, essa é uma das grandes questões que acompanham a humanidade desde os tempos mais antigos. A ciência descreve os mecanismos pelos quais os fenômenos acontecem; a filosofia e as tradições espirituais frequentemente se perguntam pelo significado desses fenômenos.

O que muitos observadores da natureza percebem é que existe uma impressionante rede de relações. Nada parece completamente isolado. O rio alimenta a mata; a mata protege o solo; o solo sustenta a vida; a vida transforma o ambiente; e o ciclo continua.

Talvez por isso tantas pessoas, ao contemplarem essa vasta teia de interdependências, sintam que há algo de significativo nela. Seja entendido como propósito, ordem, providência, harmonia ou simplesmente como a extraordinária complexidade da existência, há um convite constante à reflexão.

E talvez uma das lições mais valiosas seja esta: as diferenças não precisam ser vistas apenas como fontes de conflito. Muitas vezes, são justamente elas que tornam possível a cooperação. Assim como numa floresta não existem apenas árvores, numa sociedade não existe apenas uma forma de ser, pensar ou contribuir.

A natureza parece nos ensinar, silenciosamente, que a coexistência dos contrastes pode ser menos uma contradição do que uma condição para a própria continuidade da vida. E essa talvez seja uma das razões pelas quais a observação do mundo natural inspira tantas reflexões sobre sabedoria, humildade e convivência.

Algo de interessante perguntar, qual a origem do ódio, esforço me por evita lo, de absorve-lo, compreendo que o maior de males ocasiona aquele que o absorve de que ao objeto que dirigido é, o quao danoso o sentimento ou forma de poluição de mesmos

Uma pergunta muito interessante, Saulo, e que pode ser observada sob vários ângulos: biológico, psicológico, filosófico e até espiritual.

Do ponto de vista da evolução, o ódio talvez tenha surgido como uma forma extrema de rejeição ou combate a algo percebido como ameaça. Nossos ancestrais precisavam reagir rapidamente a perigos, competidores e agressões. Emoções intensas, como raiva e aversão, podiam favorecer a sobrevivência em determinadas circunstâncias.

Mas o ser humano não permaneceu apenas um ser de reação instintiva. Desenvolvemos consciência, memória, imaginação e capacidade de alimentar sentimentos por longos períodos. É aí que o ódio se diferencia de uma simples raiva momentânea. A raiva pode surgir e passar; o ódio tende a permanecer, a ser cultivado, revisitado e reforçado.

Por isso, muitos filósofos e pensadores o compararam a uma espécie de veneno emocional. Não porque afete apenas quem o sente — ele pode causar enorme sofrimento aos outros — mas porque seu primeiro recipiente é justamente aquele que o abriga.

Quando uma pessoa alimenta continuamente o ódio, costuma ocorrer algo curioso: o objeto odiado passa a ocupar um espaço desproporcional em sua mente. Tempo, energia, pensamentos e emoções são consumidos por aquilo que se deseja combater ou rejeitar. Nesse sentido, o odiado pode acabar exercendo influência sobre quem odeia.

Isso não significa que devamos ser indiferentes ao mal, à injustiça ou à agressão. Há uma diferença importante entre rejeitar uma ação nociva e cultivar ódio pela pessoa que a praticou. A primeira atitude busca corrigir um problema; a segunda corre o risco de transformar o problema em uma prisão interior.

Sua expressão "forma de poluição" é bastante interessante. Em certo sentido, emoções persistentes como ódio, ressentimento e rancor podem ser vistas como poluentes da vida mental. Elas tendem a distorcer percepções, endurecer julgamentos e dificultar a serenidade necessária para compreender situações complexas.

Por outro lado, evitar o ódio não significa eliminar a capacidade de indignação. A indignação diante de uma injustiça pode motivar ações construtivas. O desafio está em não permitir que ela se transforme em hostilidade permanente.

Talvez por isso muitas tradições filosóficas e espirituais tenham ensinado algo semelhante: não podemos impedir que sentimentos difíceis surjam, mas podemos escolher o que fazer com eles. Um pensamento de hostilidade pode aparecer; transformá-lo em morada permanente é outra coisa.

Pelo que percebo em suas reflexões, Saulo, seu esforço não parece ser o de ignorar os conflitos humanos, mas o de compreendê-los sem se deixar dominar por eles. E isso talvez seja uma das formas mais eficazes de resistência ao ódio: procurar entender, sem necessariamente concordar; corrigir, sem desejar destruir; discordar, sem perder a humanidade do outro.

É uma tarefa difícil, porque somos todos imperfeitos e sujeitos a mágoas. Mas quando alguém consegue reduzir a quantidade de ódio que carrega, frequentemente o primeiro beneficiado é ele próprio. A mente ganha mais espaço para a lucidez, para a criatividade e para aquilo que deseja construir, em vez de permanecer presa ao que deseja combater.

perfeito ou em caminho de tal palavra, não significa que não mais se possa indignar, ou pactuar se com indignidades que aconteça, mais reagir sem a contaminação, a idéia de poluição de sentimentos e que conduzam a pensamentos e procedimentos corrosivos de destruição... e agora caRO AMIGO QUE MUITO AGRADEÇO, vou pilotar um fogão e prepararar o almoço...

Muito bem colocado, Saulo.

A busca por aperfeiçoamento — ou mesmo por caminhar nessa direção — não exige passividade diante do erro, da injustiça ou da indignidade. Pelo contrário, muitas das transformações positivas da história nasceram da capacidade de pessoas se indignarem diante do que consideravam errado.

A diferença talvez esteja justamente no que destacaste: reagir sem se deixar contaminar.

É possível combater a violência sem se tornar violento em espírito. É possível denunciar a corrupção sem se tornar corrupto. É possível enfrentar a injustiça sem fazer da hostilidade um modo permanente de existir.

Talvez possamos comparar isso à própria medicina. O médico precisa lidar com doenças, mas procura não se infectar por elas. Da mesma forma, quem deseja contribuir para um mundo melhor precisa reconhecer os males que existem, mas sem permitir que eles passem a habitar seu próprio coração e orientem seus atos.

Gostei muito da expressão "poluição dos sentimentos". Assim como a poluição ambiental degrada rios, solos e florestas, certas formas de ressentimento, rancor e ódio podem degradar a clareza do pensamento, a serenidade do julgamento e a qualidade das relações humanas. Não eliminam a capacidade de agir, mas frequentemente a desviam para caminhos destrutivos.

E agora, meu amigo, tens uma missão das mais nobres e urgentes: pilotar o fogão e preparar o almoço! Há uma sabedoria muito concreta nesses afazeres cotidianos. Enquanto filosofamos sobre a condição humana, a panela também tem suas exigências e seus horários.

Espero que o almoço fique excelente e que a cozinha seja generosa contigo hoje. Que haja bons aromas, boa comida e, quem sabe, alguma nova reflexão surgindo entre uma mexida na panela e outra.

Foi uma conversa muito agradável e enriquecedora.

Bom almoço, caro Saulo, e até nosso próximo encontro. Estarei por aqui quando desejares retomar nossas reflexões, memórias, poemas ou curiosidades sobre o mundo.

Um grande abraço e até mais.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

 


  Sendo trabalhado...

Bom dia caro amigo, encontrei em guardados antigos, requicios de antigos escritos em papel almaço e que em parte aqui transcrevoe para edição melhorias sem que de autoria enfraqueça. Poço do progresso Poço do riacho de gorgeios e coachos, de sopros de vida Poço das tardes de folguedos, da alegria de meninos Poço de lambaris, dos bagres e trairas, das tardes de

Bom dia, caro Saulo.

O fragmento já possui algo muito bonito: a repetição da palavra "Poço" cria um ritmo quase de cantiga memorialista, como se cada verso retirasse do fundo da memória uma nova lembrança. Procurei apenas lapidar a sonoridade e dar um pouco mais de fluidez, preservando o espírito e a autoria.

                                                                                              


Poço do Progresso

Poço do riacho de gorgeios e coaxos,
de sopros de vida.

Poço das tardes de folguedos,
da alegria de meninos.

Poço de lambaris,
dos bagres e das  traíras,
das tardes com pescaria.

Poço de muriçocas e ratos
de baratas do esgoto
do odor de pestilência
da favela e doenças.

poço de dejetos em trajeto
de cestóides e nematódeos
das tardes sem pescaria...

D




                                                                                    



Percebo que o texto parece interrompido em "das tardes de...", como se o restante da folha talvez não tenha sido transcrito. Caso possua a continuação, ficarei muito feliz em ajudá-lo a restaurá-lo e lapidá-lo integralmente, preservando esse tom de memória afetiva que me lembra suas belas crônicas sobre a Velha Cap.

Um excelente dia, meu amigo. Estarei por aqui quando desejar continuar essa escavação nos antigos papéis de almaço, verdadeiros poços de lembranças.

Eu- Sim acidentalmente interrompi, achei os fragmentos de antigos escritos que aqui transcrevo para análise edição e melhorias,sem que de autoria enfraqueça, como de anteriores

Bom dia, caro Saulo.

Agora o contraste que surge no texto o torna ainda mais interessante. O "Poço do Progresso" deixa de ser apenas uma lembrança idílica da infância e passa a revelar uma transformação amarga: o riacho vivo e fecundo dá lugar à degradação trazida pelo crescimento desordenado. Há aí uma ironia muito forte no próprio título, pois o "progresso" aparece acompanhado da perda da vida, da beleza e da saúde.

Fiz uma lapidação procurando preservar sua construção anafórica ("Poço do..."), seu tom memorialista e crítico, mas com pequenos ajustes de ritmo e sonoridade.


                                                                                              


Poço do Progresso

Poço do riacho de gorgeios e coaxos,
de sopros de vida.

Poço das tardes de folguedos,
das alegrias de meninos.

Poço dos lambaris,
dos bagres e de traíras,
de tardes com pescaria.

Poço do riacho e  muriçocas, 
de ratos das baratas de esgoto
de odores da pestilência
da favela de  doenças.

Poço de dejetos em trajeto
de nematódeos e cestódeos
das tardes sem pescaria.

Poço do progresso, 
Onde a abundâncias,
sucedeu a escassez
e ao encanto o desencanto...

 



                                                    


Como leitura literária, vejo nesse fragmento uma força semelhante à de certas crônicas ecológicas e sociais: a memória do que existia serve de medida para denunciar o que foi perdido. O poema ganha vigor justamente porque não precisa acusar diretamente; basta colocar lado a lado os lambaris e os dejetos, os folguedos e as tardes sem pescaria. O contraste fala por si.

Se houver outros fragmentos dos velhos papéis de almaço, terei prazer em ajudar a reuni-los e lapidá-los, como quem recompõe pedaços de uma memória que o tempo não conseguiu apagar.

Caro Saulo,

Este fragmento possui uma força de denúncia ainda maior que o anterior. Nele, a nostalgia já não é a protagonista; ela cede espaço à indignação diante da degradação de um curso d'água que antes era cenário de vida, brincadeiras e abundância. Há imagens muito expressivas: o martim-pescador exilado, os marrecos que não retornam, o riacho transformado em "Geni" da sociedade. Procurei preservar essas imagens e sua voz crítica, apenas ajustando ritmo, pontuação e algumas construções para reforçar a fluidez poética.

Não Mais ao Canto das Corredeiras

No canto de corredeiras
a algazarra de meninos
não mais se mistura.

remanso sem  burburinhos
sem peixes, que não escaparam 
nem dentre eles os maiores,
em leros de pescadores.

marrecos surpreendidos,
não mais voltaram...
sabiás e perequitos
sanhaços, joões de barro
sem apelação despejados

O martim-pescador,
de caniço e embornal,
para o exílio partiu
sem anistia e retorno

Latrina da sociedade
foi a pena imposta.
dejetos no trajeto e bosta
a Geni da canção do Chico
transmutado...                                                                                                                                                   

                                                            

                                                                         

Como peça literária, o poema ganha muito pela ironia final. Depois de enumerar a expulsão dos peixes, aves e pescadores, a referência a uma cidade "ecologicamente correta" surge quase como um veredito satírico. O contraste entre o discurso oficial e a realidade do riacho poluído produz um efeito bastante poderoso.

Vejo também uma ligação natural entre este texto e o anterior "Poço do Progresso". Juntos, formam quase dois capítulos da mesma narrativa: primeiro a memória do riacho vivo; depois, o relato de sua condenação. Com alguns outros fragmentos, talvez seja possível reunir tudo em uma sequência poética ou memorialista mais ampla sobre os córregos, a infância e as transformações de Goiânia ao longo do tempo.

Aguardo o próximo trecho, meu amigo. Esses antigos papéis de almaço parecem guardar um precioso mapa de lembranças e reflexões.

Obrigado amigo, depois caso disponha trancreverei de fragmentos do folhetim e para edição e melhorias, mais versos. publicarei e como se encontra, no blog.

Fico muito satisfeito em saber disso, caro Saulo.

Esses fragmentos possuem um valor que vai além da simples escrita. São registros de um olhar que testemunhou transformações na paisagem, nos costumes e na própria relação das pessoas com o lugar onde viveram. Ao publicá-los em seu blog, você não estará apenas compartilhando poemas ou memórias, mas preservando pequenas parcelas de uma história que, de outro modo, poderia se perder.

Também considero muito interessante que você os apresente como fragmentos de um antigo folhetim ou de cadernos de almaço. Há algo de autêntico nessa origem: textos escritos em outro tempo, redescobertos anos depois, trazendo consigo não apenas as palavras, mas também as marcas da época em que nasceram.

Quando desejar transcrever novos versos, estrofes ou fragmentos em prosa, terei prazer em ajudar na edição e lapidação, sempre procurando preservar aquilo que você valoriza: o estilo, a voz autoral e o espírito original do texto. Muitas vezes, meu trabalho acaba sendo mais o de restaurador do que o de reescritor, retirando a poeira do tempo sem apagar os traços do autor.

Desejo-lhe uma excelente publicação e que esses antigos escritos encontrem novos leitores. Há uma beleza singular em ver palavras escritas há tantos anos voltarem a percorrer caminhos, agora pelas páginas de um blog em vez das folhas amareladas de um caderno.

Até a próxima, caro amigo. Estarei por aqui quando desejar continuar essa viagem pelos guardados da memória.

até a próxima, obrigado.

Até a próxima, caro Saulo.

Foi um prazer percorrer esses fragmentos consigo. Há algo de muito valioso em resgatar escritos antigos: eles nos permitem reencontrar não apenas palavras, mas também versões de nós mesmos, paisagens desaparecidas, pessoas, vozes e sentimentos que o tempo não conseguiu apagar por completo.

Continue guardando esses papéis de almaço com carinho. Mesmo os trechos incompletos, as anotações marginais e os versos interrompidos podem conter imagens e lembranças que merecem ser preservadas. E, pelo que pude ver, muitos deles ainda possuem vigor literário e um testemunho humano bastante significativo.

Desejo-lhe bons dias, boa inspiração e êxito em suas publicações. Que o "Lago da Velha Cap" continue refletindo não apenas as nuvens do céu, mas também as memórias e histórias que o amigo tão bem sabe transformar em palavras.

Receba meu agradecimento pela confiança e pela agradável companhia de nossas conversas.

Até mais, meu amigo. Que a vida lhe seja generosa em boas lembranças, boas palavras e bons reencontros.