Retalhos de memórias, Velha cap DF. capitulo 7

                                                         



 Na Antiga antiga Escola Classe Júlia Kubitschek, no Distrito Federal, vivi alguns dos momentos mais marcantes de minha infância.






Capítulo [X]: A Luz da Infância e a Lição da Aceitação
Não era um aluno aplicado. Embora gostasse da escola, dos colegas e das professoras, não me dedicava como deveria aos estudos. Desviava, por vezes, do caminho das aulas para buscar folguedos nas beiras dos córregos. No entanto, uma professora — a dona Alcione, que por pouco tempo permanecera em nossa sala antes de ser transferida — despertou em mim, por alguma razão, uma enorme vontade de corresponder às suas expectativas.
Mantive o foco. Estudava as lições de casa com afinco. Quando havia sabatinas em sala de aula, eu tinha as respostas prontas, na ponta da língua. Ela logo me distinguiu entre os demais, o que culminou em um desempenho brilhante de lição e sabatina diante de todos os alunos do período noturno.
Após a boa repercussão, dona Alcione anunciou uma peça teatral sobre Tiradentes, na qual nós, os alunos da classe, seríamos os protagonistas. Levou-nos até sua casa, onde os papéis seriam distribuídos e os ensaios aconteceriam. Mas, por razões que desconheço, o projeto não foi adiante. Pouco tempo depois, ela foi transferida.
Foram apenas alguns meses, mas que se tornaram, assim como ela, inesquecíveis. Quando ela se foi, perdi o foco e voltei a ser o aluno relapso de costume. Ainda hoje, mais de sessenta anos depois, guardo com extrema gratidão e carinho a sua lembrança e a transformação que ela causou em mim através de sua atenção e pedagogia.
O Dia que Mudou Tudo
O Grupo Escolar Júlia Kubitschek reunia filhos de operários e filhos de funcionários graduados da Novacap. Compartilhávamos as mesmas salas de aula, embora nos agrupássemos, de certa forma, em nossas próprias afinidades de brincadeiras e amizades.
Dentre os eventos daquela época, um fato avulta sobremaneira na minha história, deixando sequelas traumáticas, permanentes e, por muito tempo, constrangedoras — no entanto, hoje, inteiramente superadas.
Era mês de junho. A direção e um grupo de professoras resolveram comemorar as festividades em grande estilo, com a tradicional quadrilha que ensaiávamos e a confecção de barracas para o comércio de produtos típicos. As folhas de palmeira para a cobertura das barracas seriam colhidas na mata do Jardim Zoológico, em nossas cercanias. Em vez de alocarem funcionários para a tarefa — uma imprudência e um grande erro —, improvisou-se que os próprios alunos, em grupo, adentrariam a mata para colher e transportar o material.
Ficou acertado que o aluno que tivesse um facão em casa deveria trazê-lo. Formou-se, de pronto e com entusiasmo, um grupo na sala de aula para ir à mata na manhã seguinte. Eu quase não fui; no caminho, acabei me envolvendo em uma pelada de futebol. Um aluno retardatário, o "Peixe Dez" — que era interno do Juizado de Menores e estudava conosco —, viu-me jogando bola e chamou-me. Relutei, demorei um pouco, mas a responsabilidade falou mais alto e segui no encalço do grupo.
Eles haviam penetrado na mata por uma estrada que fora começada e abandonada. Quando os alcancei, os meninos pareciam meio inseguros. Havia, a um canto da estrada, uma vela acesa. Para encorajá-los, atirei sobre ela um punhado de terra, apagando-a. Tomando a dianteira, adentrei a mata — algo que eu muito apreciava.
Subi e verguei uma palmeira de palmito. Alguém sugeriu que tirássemos o broto. Segurei a ponta da palmeira enquanto o Barbosa, colega de classe, dispôs-se a cortá-la. Olhei para ele que, freneticamente, em diagonal e de modo atabalhoado, golpeava com o facão. Foi o instante que mudou completamente a minha vida: fui atingido pela ponta da lâmina direto no olho.
Caí por terra, na lama. Levantei-me logo em seguida. O que me revelou a gravidade do ocorrido não foi a dor — curiosamente inexistente naquele momento —, mas a expressão de horror estampada no rosto dos outros meninos.
O Trauma e o Disfarce
A festa acabou ali. Retornamos em um silêncio pesado. No meio do caminho, lembro-me de ter tentado tapar o olho são para enxergar com o outro, mas nada vi. Chegamos à escola e, no semblante das professoras, lemos o horror e a consternação. Fui imediatamente conduzido ao hospital do IAPI — hoje um museu — e, depois de examinado, transferido para o Hospital de Base, no Plano Piloto. Submetido a uma cirurgia sob anestesia geral, recebi a notícia: o olho não pôde ser salvo.
Depois de um tempo usando tapa-olho, fui levado à Solótica, no antigo Edifício Arnaldo Villares, se não me falha a memória. Ali, instalaram-me uma prótese. Fizeram-na um pouco maior para que se ajustasse ao meu crescimento futuro; contudo, aquela desproporção tornou-se, por toda a minha adolescência, motivo de profundo trauma e constrangimento.
Deixava o cabelo crescer para cair sobre o rosto. Usava óculos escuros inclusive à noite, mentindo para justificar o artifício, dizendo que as lentes eram especiais e me permitiam enxergar no breu. Desde o primeiro instante, porém, relatei a todos que fora um acidente. Jamais culpei ou guardei mágoa do Barbosa. Na verdade, eu o esquecera, e só me lembrava dele, de quando em quando, através do próprio fato.
O Verdadeiro Milagre
Anos depois, já adulto, deitado em minha cama e ainda inconformado com a perda, pedi a Deus, com todo o fervor do meu ser, que me restituísse o olho. Como uma prova de fé que julguei necessária, levantei-me no meio da noite e me dirigi a um córrego a uns três quilômetros de distância. Diante daquelas águas escuras e poluídas, retirei a prótese e, no breu da noite, atirei-a ao remanso.
Voltei para casa acreditando piamente que o milagre aconteceria. Ao acordar pela manhã, teria a visão restaurada e o olho de volta, finalmente.
Ao amanhecer, deparei-me com a dura realidade: a cavidade vazia permanecia ali.
Esperei o cair da noite seguinte e dirigi-me novamente ao córrego. Adentrei a água escura e, tateando o fundo barroso com as mãos por todo o remanso, gastei um tempo indeterminado. Até que meus dedos sequiosos tocaram algo familiar.
Era a prótese.
Fechei-a na palma da mão. Senti uma indescritível sensação de alívio e satisfação. Aquele objeto, outrora motivo de vergonha, era agora um tesouro. Como o patinho feio que se revelara cisne, voltei para casa, higienizei-o cuidadosamente e o recoloquei na cavidade. [1]
Ali terminava o trauma. Ali findava o constrangimento.
Abandonei os óculos escuros e a mecha de cabelo sobre o rosto. O milagre que eu esperava não aconteceu da forma imaginada; meu olho físico não voltara. Mas nasceu, naquele instante, a aceitação e, com ela, a verdadeira superação.
O Encontro com a Memória
Hoje, quando me recordo da Escola Classe Júlia Kubitschek, não me vêm à mente apenas os acidentes, mas, sobretudo, as pessoas.
Dona Alcione, dona Mariel, professora Elizabete, dona Marta, dona Dalva, dona Regina, dona Mireta, a diretora, e dona Conceição, a merendeira... Além dos colegas de sala e de escola que compartilharam tempo e espaço naquele universo, e que permanecem em minha memória, envolvidos pelo afeto e pela saudade.

O colégio, seus arredores, as brincadeiras, as alegrias e até mesmo as dificuldades continuam existindo em algum lugar dentro de mim. Passaram-se mais de sessenta anos. Ainda assim, quando volto a essas lembranças, reencontro não apenas uma escola, mas uma parte fundamental da história da minha vida.

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