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domingo, 11 de julho de 2010

Retalho de memórias... Velha cap DF capitulo 6











                                                            As lojinhas, Candangolândia







CAPÍTULO 6: Retratos de um Tempo Doce e a Epopeia Esquecida da Alma Candanga
Tempo doce... Que saudades! Quando fecho os olhos, revejo-me nitidamente: um menino pobre, mas transbordando de vida, perambulando livre pelas ruas da Velha Cap. Minhas pegadas ficaram na Candangolândia, na Vila do IAPI, na Vila Tenório, na Cidade Livre, na L2, nos acampamentos operários, nas margens do Córrego do Jardim e na beira do Lago Paranoá. Uma hora eu estava vadiando, em outra estava engraxando sapatos nos postos de gasolina e alojamentos. Ora trocava gibis na porta do cinema, ora estudava na tão querida Escola Classe Júlia Kubitschek... E, claro, a maior parte do tempo eu passava jogando bola. [1, 2]
Lamento profundamente que a história oficial de Brasília seja tão "enriquecida" de eventos oficiais e figuras políticas, mas permaneça completamente vazia daqueles que realmente a construíram com o próprio suor: o povo. Lamento o descaso com o colégio Júlia Kubitschek e a sua posterior destruição. Lamento o sumiço dos alojamentos que abrigavam tantas vidas. Mas fazer o quê? [1]
Portanto, caro amigo leitor... Se por acaso você der passagens por aqui e disto porventura ler; se você tiver, de alguma maneira, gosto por escrever, pintar ou fotografar, registre algo. Deixe o registro de si, do seu recanto, das suas impressões mais sinceras. Escreva uma crônica, um poema, uma narrativa... O que for. Que seja uma única linha, ou que aos olhos dos outros soe pedante, uma quixotesca algaravia repleta de frases ininteligíveis e passagens abruptas. Pouco importa! Garanto a você que o seu registro sairá muito melhor e mais verdadeiro do que o solene descaso praticado pelos administradores e historiadores oficiais da capital.
A alma candanga é rústica como o concreto armado. Na epopeia de um sonho, ela foi modelada e suavizada no dia a dia, como se fluísse diretamente da prancheta mágica do arquiteto Oscar Niemeyer. Essa gente, sim, merecia uma sorte muito melhor da história. [1]
A Última Viagem do Tio Miguel
Para finalizar esta abordagem, eu jamais poderia deixar de registrar a passagem do meu boníssimo tio Miguel. Ele foi um verdadeiro pioneiro. Funcionário dedicado da carpintaria do DAE, ele viveu única e exclusivamente para ajudar o próximo. Foi um grande tio para todos nós — ora ajudava um, ora amparava outro. Infelizmente, eu não pude estar presente no seu sepultamento, pois não fui avisado a tempo.
Tempos depois, o meu primo Altamir, o "Tamiro", contou-me como tudo aconteceu naquele dia triste. Durante o sepultamento, ao ouvir os relatos sobre a vida do meu tio e sabendo que ele era um pioneiro da construção da capital, o coveiro parou e perguntou à família se, por acaso, ele não havia recebido uma carta de agradecimento assinada pelo próprio punho de Juscelino Kubitschek.
A resposta da família foi afirmativa: sim, ele guardava essa carta.
O coveiro ponderou imediatamente que, por conta daquela honraria, o tio Miguel não poderia ser sepultado em uma cova comum. Após entrar em contato com a administração do cemitério, ele mesmo conduziu o cortejo até um recanto especial, um espaço estritamente destinado aos pioneiros por ordem expressa do próprio ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Segundo o relato do meu primo, meu tio foi acolhido na área da própria e venerada sepultura histórica dos pioneiros. [1]
O homem simples, que devotara toda a sua juventude, o seu trabalho duro e a sua fé cega na construção de Brasília, finalmente recebia o seu tributo. Ele não fora esquecido.