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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 4



CAPÍTULO 4: O "Ipsilon" da Velha Cap – Personagens, Mitos e a Vida na Rua dos Correios
Quando a aula terminava, eu saía e enviesava por um trilheiro à direita até a primeira rua do aglomerado maior da Velha Cap. Passava defronte às casas do Canela e do Zé Galdino, desembocando em frente aos Correios, bem naquele terreno pelado onde jogávamos "bete" e apostávamos disputas de pião — daquelas em que o prêmio eram os próprios piões.
Na orla do largo ficava a venda do pai do Pide e do Totonho. De um lado, via-se o barraco do dentista. O filho dele, um rapazinho à época, acabou sendo vítima de uma brincadeira de extremo mau gosto que armei: o "pau de bosta". O pior de tudo é que ele estava acompanhado da namorada, bem no portão do Júlia Kubitschek, no turno da noite. Hoje, confesso, me arrependo.
A molecagem consistia no seguinte: pegávamos um pedaço de madeira e passávamos fezes na ponta. Simulávamos uma briga feia e logo uma plateia se aglomerava ao redor. O moleque desarmado desafiava o outro a largar o porrete e "sair na mão". O oponente relutava, fazia um teatro e, tomado de falsos brios, pedia para alguém da roda segurar o pau. Quando o infeliz aceitava, sequioso para ver o embate, nós saíamos correndo e debandávamos às gargalhadas. No fim das contas, os arbustos do largo é que pagavam o pato.
Os Meninos da Jovem Guarda e o Ringue de Telecatch
Adentrando a Rua dos Correios, passava-se à esquerda, defronte à casa do Lade, vindo logo após as casas do Preto (irmão do Onofre), do Tioca alfaiate (irmão do Aluízio), do Magela, do Cosme e do João. Depois vinham a Yenes com a mãe, e o Gabriel e o Santino, também com a mãe. Abaixo dessa bifurcação é que se desenvolvia o comércio.
Cito também, e com muita grata memória, a Lindaura e o Jerry, meus colegas de sala. O Jerry curtia tanto o cantor Jerry Adriani que mantinha o cabelo com um topete idêntico, penteando-o a todo momento. No geral, todos nós curtíamos a Jovem Guarda: Beatles, Roberto Carlos, Wilson Simonal, Ronnie Von, Leno e Lilian, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps, Jorge Ben...
No auge do programa de TV, eu e o colega Rogério "Cebiom" construímos um ringue de telecatch nos fundos da casa dele. Havia também o Tumais Tomaz, apelidado de "Castelinho" por causa do pescoço curto. Ele era amigo do meu irmão, integrante daquele mesmo grupo que o apelidou de "Grilo" — e o apelido pegou. Lembro-me ainda da Dona Amélia, uma senhora muito amiga do meu tio que morava na transversal de cima e nos tratava com imenso carinho.
O Coração Comercial e o "Para Pedro"
Abaixo do vértice da rua, o traçado urbano se abria feito a letra "Y" (um ipsilon), delimitado pelas transversais de baixo e de cima. Era ali que pulsava o grosso do comércio local. Olhando-se da quina do vértice, onde se localizava o açougue do Espanhol, via-se abaixo e à esquerda o bar e venda do Nery e, logo em seguida, a mercearia do Ceará — como tinha "Ceará" na Velha Cap! —, além da venda do seu Nem, pai do Juá. À direita, na sequência, ficavam o bar do Cardoso e a pensão do Nero, com uma portinha de quitandeira meio espremida entre os dois. Acima da bifurcação, à esquerda, ficava o bar do João Leite; à frente dele, a venda do seu Abílio e, aos fundos, o quintal e barraco do meu tio Miguel. Mais acima, na esquina, a barbearia do Joaquim.
Naquele trecho, as pessoas compravam, caçoavam, brincavam e bebiam — e muito. O álcool amiúde derivava em brigas memoráveis de rolarem no chão. Assisti a muitos quebra-paus homéricos entre o Jaime açougueiro e o Zé Pretinho. Era só se encontrarem que logo se pegavam, e eu nunca soube o real motivo daquela rixa.
Outro personagem marcante e dono de uma bicicleta cargueira adaptada e interessantíssima era o "Para Pedro", um vendedor de quebra-queixo e creme. A bicicleta trazia uma espécie de caratonha feita em naco de tronco de coqueiro, esculpida com óculos escuros, chapéu e um cigarro paramentado no canto da boca. Com um megafone improvisado, ele chegava se anunciando e cantando sempre: "Para Pedro... Pedro Para..." A molecada corria e o arrodeava. Enquanto vendia os doces, ele promovia gincanas.
Ganhei um bibelô em uma dessas brincadeiras — com uma leve fraude, infelizmente, da qual não me orgulho. O desafio do Para Pedro consistia em colocar um ovo no meio da rua e, de olhos vendados e com um porrete na mão, a pessoa precisava dar um giro de 180 graus e quebrá-lo, orientada pelos gritos da galera. Quando ele amarrou a venda em mim, apertei bem os olhos e franzi a testa várias vezes. Com esse movimento, consegui deslocar a venda um pouquinho para cima e visualizar o chão sob os meus pés. Não deu outra: quebrei o ovo de primeira.
Na transversal de baixo, não se pode esquecer da mercearia do Bulú e do bar do Antônio Gravatinha — quase um "inferninho" das coroas (kkkkkk). Na transversal de cima, ficavam a venda do pai do Pide e Totonho, o pai do Neri, e a venda do Zé, irmão do Lade e do Piau.
Da Política aos Mitos Populares: A Onça e a Lua
Alguns acontecimentos da época agitaram profundamente a Velha Cap e suas adjacências. Um deles foi a cassação de políticos em massa promovida pelo governo militar. Nas ruas, o que se via eram grupos de pessoas reunidas em torno de um exemplar de jornal. Ao contrário do que a história oficial às vezes faz pensar, frases como "bem-feito para estes corruptos" era o que mais se ouvia da boca do povo simples.
Outro fato marcante foi a fuga do "Gilberto". Que rebuliço! Adrenalina pura, medo e pavor tomavam conta de todos. "Cadê o Gilberto?", era a pergunta que não calava. Os jornais noticiavam que tinham visto pegadas dele na beira do Lago Paranoá. Dias depois, diziam que fora avistado na zona rural de Unaí, em Minas, e logo mais daria o ar de sua graça na Bahia e pelo Brasil afora... Parecia até o cantor Belchior no futuro (kkkkkk). Então, numa bela manhã, bem nos fundos do Zoológico, numa das muitas armadilhas espalhadas pela mata, a onça-pintada "Gilberto" — que havia escapulido por um descuido — apareceu capturada. Conclusão: o bicho nunca tinha saído das imediações do Zoo. Que mico para a imprensa!
E como esquecer daquele saltitante passeio em preto e branco do astronauta Neil Armstrong sobre o Mar da Tranquilidade, diante das retinas embasbacadas de todos nós através das poucas TVs da QE? A febre do espaço foi tanta que, não demorou muito, a polícia prendeu um homem que estava vendendo lotes na Lua! Ele tinha mapa impresso e tudo (kkkkkk) e, quando foi pego, já tinha conseguido passar quatro lotes para trás.
Finalmente, um acontecimento triste fechou aquela época: um terrível desastre com um ônibus da TURI, que fazia a linha Belo Horizonte–Brasília. O acidente causou enorme consternação na comunidade e deixou órfão o Magela, aquele bom garoto da Rua dos Correios. Eu, que nunca tinha visto um enterro coletivo na vida, guardei aquela imagem pesada e espero nunca mais precisar ver algo parecido.