domingo, 11 de julho de 2010

Retalho de memórias... Velha cap DF capitulo 6











                                                            As lojinhas, Candangolândia







CAPÍTULO 6: Retratos de um Tempo Doce e a Epopeia Esquecida da Alma Candanga
Tempo doce... Que saudades! Quando fecho os olhos, revejo-me nitidamente: um menino pobre, mas transbordando de vida, perambulando livre pelas ruas da Velha Cap. Minhas pegadas ficaram na Candangolândia, na Vila do IAPI, na Vila Tenório, na Cidade Livre, na L2, nos acampamentos operários, nas margens do Córrego do Jardim e na beira do Lago Paranoá. Uma hora eu estava vadiando, em outra estava engraxando sapatos nos postos de gasolina e alojamentos. Ora trocava gibis na porta do cinema, ora estudava na tão querida Escola Classe Júlia Kubitschek... E, claro, a maior parte do tempo eu passava jogando bola. [1, 2]
Lamento profundamente que a história oficial de Brasília seja tão "enriquecida" de eventos oficiais e figuras políticas, mas permaneça completamente vazia daqueles que realmente a construíram com o próprio suor: o povo. Lamento o descaso com o colégio Júlia Kubitschek e a sua posterior destruição. Lamento o sumiço dos alojamentos que abrigavam tantas vidas. Mas fazer o quê? [1]
Portanto, caro amigo leitor... Se por acaso você der passagens por aqui e disto porventura ler; se você tiver, de alguma maneira, gosto por escrever, pintar ou fotografar, registre algo. Deixe o registro de si, do seu recanto, das suas impressões mais sinceras. Escreva uma crônica, um poema, uma narrativa... O que for. Que seja uma única linha, ou que aos olhos dos outros soe pedante, uma quixotesca algaravia repleta de frases ininteligíveis e passagens abruptas. Pouco importa! Garanto a você que o seu registro sairá muito melhor e mais verdadeiro do que o solene descaso praticado pelos administradores e historiadores oficiais da capital.
A alma candanga é rústica como o concreto armado. Na epopeia de um sonho, ela foi modelada e suavizada no dia a dia, como se fluísse diretamente da prancheta mágica do arquiteto Oscar Niemeyer. Essa gente, sim, merecia uma sorte muito melhor da história. [1]
A Última Viagem do Tio Miguel
Para finalizar esta abordagem, eu jamais poderia deixar de registrar a passagem do meu boníssimo tio Miguel. Ele foi um verdadeiro pioneiro. Funcionário dedicado da carpintaria do DAE, ele viveu única e exclusivamente para ajudar o próximo. Foi um grande tio para todos nós — ora ajudava um, ora amparava outro. Infelizmente, eu não pude estar presente no seu sepultamento, pois não fui avisado a tempo.
Tempos depois, o meu primo Altamir, o "Tamiro", contou-me como tudo aconteceu naquele dia triste. Durante o sepultamento, ao ouvir os relatos sobre a vida do meu tio e sabendo que ele era um pioneiro da construção da capital, o coveiro parou e perguntou à família se, por acaso, ele não havia recebido uma carta de agradecimento assinada pelo próprio punho de Juscelino Kubitschek.
A resposta da família foi afirmativa: sim, ele guardava essa carta.
O coveiro ponderou imediatamente que, por conta daquela honraria, o tio Miguel não poderia ser sepultado em uma cova comum. Após entrar em contato com a administração do cemitério, ele mesmo conduziu o cortejo até um recanto especial, um espaço estritamente destinado aos pioneiros por ordem expressa do próprio ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Segundo o relato do meu primo, meu tio foi acolhido na área da própria e venerada sepultura histórica dos pioneiros. [1]
O homem simples, que devotara toda a sua juventude, o seu trabalho duro e a sua fé cega na construção de Brasília, finalmente recebia o seu tributo. Ele não fora esquecido.



segunda-feira, 24 de maio de 2010

Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 5



www.ipatrimonio.org



...Primeira igreja de Brasília repare no estado já em abandono, tinha um coreto do lado, era freqüentada e amada pelo povo...
wikimapia


CAPÍTULO 5: O Suor da Infância, as Fronteiras Invisíveis e os "Rocks" da Candanga
Além de jogar bola e brincar, eu trabalhava — e como! Enchia tambores com água, engraxava sapatos nos postos de gasolina da BR e em vários alojamentos da Velha Cap e da Candangolândia. Também coletava sucata pelos acampamentos e vendia jornais na Asa Sul. No tempo que sobrava, eu pescava. Às vezes ia acompanhado do meu irmão e do Tamiro (Altamir); outras vezes, com o Augustinho, o nosso "Agustín".
Nós tracejávamos a mata do Jardim, desbravávamos os fundos do Núcleo Bandeirante e a ponta do Lago Paranoá na Asa Sul. Volta e meia topávamos de frente com os guardas do Zoológico — e aí era aquela correria desenfreada pela mata! "Cará" e tilápia tinham a dar com pau naquelas águas.
Havia duas entradas principais de acesso à Velha Cap e à Candangolândia através da rodovia dos postos. A transversal de cima adentrava entre o campo do Guará e o cerradinho, onde ficava o campinho de várzea em que jogávamos nossas peladas. A outra entrada, localizada mais abaixo, era asfaltada e passava bem à direita da rua em que moravam a professora Alcione, o colega de escola Zé Fernandes e onde também diziam ter residido o célebre engenheiro Bernardo Sayão. Um dos meus locais favoritos de folguedo na mata ficava um pouco abaixo dali, composto por pequenas lagoas formadas entre a vegetação. Na altura da pensão da dona Lourdes, também naquela baixada, encontravam-se o Juizado de Menores, alguns alojamentos operários e o temido presídio da "Rua do Sossego".
Fronteiras Invisíveis e Risadas de Sala de Aula
A impressão nítida que se tinha na época era de que os funcionários moradores da Velha Cap, no geral, pertenciam a escalões mais modestos em relação ao pessoal que habitava a Candangolândia. Por conta dessa sutil barreira social, a molecada dos dois lados pouco se misturava espontaneamente.
Eu, porém, quebrava essa regra e me dava muito bem com boa parte deles, especialmente com os garotos do time de futebol. Na sala de aula, por exemplo, o Vicente Batinga e eu éramos uma peça: não podíamos sequer olhar um para a cara do outro enquanto líamos a lição que logo caíamos na gargalhada, para desespero da professora.
Um dia, fui visitá-lo em sua casa. O barraco dele ficava bem nos fundos da Candangolândia, na beira do córrego. Aproveitei a visita e o ajudei em uma de suas ocasionais tarefas domésticas: buscar lenha em um cerradinho que ficava logo do outro lado da margem.
Também conhecia o Beto Veloso (irmão do Lúcio e do Gilsim) e o Zé Geraldo. Trombava ocasionalmente pelas ruas com o Nito e com o Dedé, seu irmão que infelizmente já é falecido. Também via com frequência o João Batista e o Fernando, seu irmão. Eles moravam na "Gurutuba", uma ruazinha com pouquíssimos barracos situada bem na beira da mata, colada ao Zoológico. Com o tempo, aqueles meninos tornaram-se meus grandes e inseparáveis amigos.
A Primeira Igreja e as Ruas de "Rock"
Na Candangolândia ficava a famosa igrejinha de madeira com seu coreto — a Paróquia São José Operário, reconhecida historicamente como a primeira igreja de Brasília. Ela era o coração da comunidade, frequentada e profundamente amada pelo povo trabalhador. Próximo a ela ficavam também a primeira delegacia da nova capital, diversos alojamentos da Novacap e a imponente "Rua dos Engenheiros", onde moravam os filhos metidos das chefias. [1, 2]
Havia também uma área comercial que todos chamávamos carinhosamente de "Rua das Lojinhas". As vias residenciais eram organizadas de forma técnica pela administração: Rua A1, A2, A3 e assim por diante. Porém, os garotos mais cheios de pose da Candangolândia decidiram rebatizá-las à moda da época, chamando as quadras de "Rock 1", "Rock 2" e "Rock 3". E não é que a mania pegou na boca de todo mundo?


Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 4



CAPÍTULO 4: O "Ipsilon" da Velha Cap – Personagens, Mitos e a Vida na Rua dos Correios
Quando a aula terminava, eu saía e enviesava por um trilheiro à direita até a primeira rua do aglomerado maior da Velha Cap. Passava defronte às casas do Canela e do Zé Galdino, desembocando em frente aos Correios, bem naquele terreno pelado onde jogávamos "bete" e apostávamos disputas de pião — daquelas em que o prêmio eram os próprios piões.
Na orla do largo ficava a venda do pai do Pide e do Totonho. De um lado, via-se o barraco do dentista. O filho dele, um rapazinho à época, acabou sendo vítima de uma brincadeira de extremo mau gosto que armei: o "pau de bosta". O pior de tudo é que ele estava acompanhado da namorada, bem no portão do Júlia Kubitschek, no turno da noite. Hoje, confesso, me arrependo.
A molecagem consistia no seguinte: pegávamos um pedaço de madeira e passávamos fezes na ponta. Simulávamos uma briga feia e logo uma plateia se aglomerava ao redor. O moleque desarmado desafiava o outro a largar o porrete e "sair na mão". O oponente relutava, fazia um teatro e, tomado de falsos brios, pedia para alguém da roda segurar o pau. Quando o infeliz aceitava, sequioso para ver o embate, nós saíamos correndo e debandávamos às gargalhadas. No fim das contas, os arbustos do largo é que pagavam o pato.
Os Meninos da Jovem Guarda e o Ringue de Telecatch
Adentrando a Rua dos Correios, passava-se à esquerda, defronte à casa do Lade, vindo logo após as casas do Preto (irmão do Onofre), do Tioca alfaiate (irmão do Aluízio), do Magela, do Cosme e do João. Depois vinham a Yenes com a mãe, e o Gabriel e o Santino, também com a mãe. Abaixo dessa bifurcação é que se desenvolvia o comércio.
Cito também, e com muita grata memória, a Lindaura e o Jerry, meus colegas de sala. O Jerry curtia tanto o cantor Jerry Adriani que mantinha o cabelo com um topete idêntico, penteando-o a todo momento. No geral, todos nós curtíamos a Jovem Guarda: Beatles, Roberto Carlos, Wilson Simonal, Ronnie Von, Leno e Lilian, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps, Jorge Ben...
No auge do programa de TV, eu e o colega Rogério "Cebiom" construímos um ringue de telecatch nos fundos da casa dele. Havia também o Tumais Tomaz, apelidado de "Castelinho" por causa do pescoço curto. Ele era amigo do meu irmão, integrante daquele mesmo grupo que o apelidou de "Grilo" — e o apelido pegou. Lembro-me ainda da Dona Amélia, uma senhora muito amiga do meu tio que morava na transversal de cima e nos tratava com imenso carinho.
O Coração Comercial e o "Para Pedro"
Abaixo do vértice da rua, o traçado urbano se abria feito a letra "Y" (um ipsilon), delimitado pelas transversais de baixo e de cima. Era ali que pulsava o grosso do comércio local. Olhando-se da quina do vértice, onde se localizava o açougue do Espanhol, via-se abaixo e à esquerda o bar e venda do Nery e, logo em seguida, a mercearia do Ceará — como tinha "Ceará" na Velha Cap! —, além da venda do seu Nem, pai do Juá. À direita, na sequência, ficavam o bar do Cardoso e a pensão do Nero, com uma portinha de quitandeira meio espremida entre os dois. Acima da bifurcação, à esquerda, ficava o bar do João Leite; à frente dele, a venda do seu Abílio e, aos fundos, o quintal e barraco do meu tio Miguel. Mais acima, na esquina, a barbearia do Joaquim.
Naquele trecho, as pessoas compravam, caçoavam, brincavam e bebiam — e muito. O álcool amiúde derivava em brigas memoráveis de rolarem no chão. Assisti a muitos quebra-paus homéricos entre o Jaime açougueiro e o Zé Pretinho. Era só se encontrarem que logo se pegavam, e eu nunca soube o real motivo daquela rixa.
Outro personagem marcante e dono de uma bicicleta cargueira adaptada e interessantíssima era o "Para Pedro", um vendedor de quebra-queixo e creme. A bicicleta trazia uma espécie de caratonha feita em naco de tronco de coqueiro, esculpida com óculos escuros, chapéu e um cigarro paramentado no canto da boca. Com um megafone improvisado, ele chegava se anunciando e cantando sempre: "Para Pedro... Pedro Para..." A molecada corria e o arrodeava. Enquanto vendia os doces, ele promovia gincanas.
Ganhei um bibelô em uma dessas brincadeiras — com uma leve fraude, infelizmente, da qual não me orgulho. O desafio do Para Pedro consistia em colocar um ovo no meio da rua e, de olhos vendados e com um porrete na mão, a pessoa precisava dar um giro de 180 graus e quebrá-lo, orientada pelos gritos da galera. Quando ele amarrou a venda em mim, apertei bem os olhos e franzi a testa várias vezes. Com esse movimento, consegui deslocar a venda um pouquinho para cima e visualizar o chão sob os meus pés. Não deu outra: quebrei o ovo de primeira.
Na transversal de baixo, não se pode esquecer da mercearia do Bulú e do bar do Antônio Gravatinha — quase um "inferninho" das coroas (kkkkkk). Na transversal de cima, ficavam a venda do pai do Pide e Totonho, o pai do Neri, e a venda do Zé, irmão do Lade e do Piau.
Da Política aos Mitos Populares: A Onça e a Lua
Alguns acontecimentos da época agitaram profundamente a Velha Cap e suas adjacências. Um deles foi a cassação de políticos em massa promovida pelo governo militar. Nas ruas, o que se via eram grupos de pessoas reunidas em torno de um exemplar de jornal. Ao contrário do que a história oficial às vezes faz pensar, frases como "bem-feito para estes corruptos" era o que mais se ouvia da boca do povo simples.
Outro fato marcante foi a fuga do "Gilberto". Que rebuliço! Adrenalina pura, medo e pavor tomavam conta de todos. "Cadê o Gilberto?", era a pergunta que não calava. Os jornais noticiavam que tinham visto pegadas dele na beira do Lago Paranoá. Dias depois, diziam que fora avistado na zona rural de Unaí, em Minas, e logo mais daria o ar de sua graça na Bahia e pelo Brasil afora... Parecia até o cantor Belchior no futuro (kkkkkk). Então, numa bela manhã, bem nos fundos do Zoológico, numa das muitas armadilhas espalhadas pela mata, a onça-pintada "Gilberto" — que havia escapulido por um descuido — apareceu capturada. Conclusão: o bicho nunca tinha saído das imediações do Zoo. Que mico para a imprensa!
E como esquecer daquele saltitante passeio em preto e branco do astronauta Neil Armstrong sobre o Mar da Tranquilidade, diante das retinas embasbacadas de todos nós através das poucas TVs da QE? A febre do espaço foi tanta que, não demorou muito, a polícia prendeu um homem que estava vendendo lotes na Lua! Ele tinha mapa impresso e tudo (kkkkkk) e, quando foi pego, já tinha conseguido passar quatro lotes para trás.
Finalmente, um acontecimento triste fechou aquela época: um terrível desastre com um ônibus da TURI, que fazia a linha Belo Horizonte–Brasília. O acidente causou enorme consternação na comunidade e deixou órfão o Magela, aquele bom garoto da Rua dos Correios. Eu, que nunca tinha visto um enterro coletivo na vida, guardei aquela imagem pesada e espero nunca mais precisar ver algo parecido.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 3

www.rese archgate.

CAPÍTULO 3
Um coro juvenil espraia as estrofes do hino nacional nas imediações do Júlia. O menino aperta o passo, atravessa o portão e se detém, empertigando-se. Comportávamos-nos assim quando chegávamos atrasados em meio à solenidade que acontecia antes do início das aulas, no térreo do prédio principal.
A Escola Classe Júlia Kubitschek, cópia quase fiel do Catetinho — residência oficial do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira —, compunha-se do prédio principal e dois anexos. À esquerda do prédio principal, olhando-se do portão para dentro, o terreno abrigava uma pequena piscina desativada e um parquinho roto... Isto na época. Ao fundo, no térreo do prédio, ficava a diretoria, onde a dona Mireta, a diretora, trabalhava. Ao lado, a cozinha da Dona Ana, a merendeira, mãe do Peca e do Valdimar (um goleiro dos bons).
Rampa acima ficava o corredor com as salas de aula. Lembro-me das professoras da época: Dona Marta, Dona Elizabeth, Dona Meriel, Dona Alcione, Dona Regina, Dona Dalva e outras, não menos importantes, que me fugiram à memória.
Inesquecível professora, a Dona Alcione! Transformara um aluno desatento em exemplo para toda a classe e escola, a ponto de fazê-lo apresentar-se diante de todos com o texto na ponta da língua. Pena que, em pouco tempo, ela foi transferida, e os efeitos logo se reverteram.
A professora Dona Regina gozava de grande popularidade entre os alunos de todas as classes. Gostava de esportes e acabou por organizar um torneio interclasses de futebol. Que entusiasmo! Cada classe organizou o seu time. Eu jogava no gol de um time de moleques da Velha Cap e fechava o gol, modéstia à parte. Minha classe, o terceiro ano (um grupinho preponderante), impôs o "Gato", um colega de sala, na posição. Vi-me excluído. Calado, chateado e inconformado eu fiquei. [1]
No segundo ano jogavam o Piau, o Lade e o Ceará, integrantes do timinho da Velha Cap como eu. Eles entenderam a situação e convenceram a professora a me incluir para atuar no gol do time deles. O segundo ano acabou por se sagrar campeão do torneio! Fechei o gol, claro.
A partir de então, o time da Velha Cap se mesclou com os colegas da Candangolândia: o Zé Alves, o Totó, o Jaime, o Jorge, entre outros. Esse time logo se desfaria com a demolição dos barracos da Velha Cap e o transporte dos moradores para a região de Planaltina, no DF. Mas, pelo que eu me lembre, embora os jogos fossem esporádicos, nunca perdemos. Jogamos até com os garotos da L2, no Plano Piloto.
A Velha Cap era um rebuliço com sua gente alegre e simples. Do conforto dos dias de hoje quase nada tinha, a não ser o rádio, ativo em toda parte. O transeunte que o diga! Mandavam ver nas músicas dos Beatles e outros sucessos da Jovem Guarda, deixando a Velha Guarda eclipsada. Aparelho de TV? Poucos tinham. Era bonito de se ver as salas apinhadas de vizinhos e moleques, e até gente do lado de fora, "brechando" através das frestas nas paredes de tábua. Desse modo acompanhei Perdidos no Espaço, Telecatch, Família Trapo, entre outros programas.
Quanta gente boa... Gente como a Prima Neném. Pareciam-se com plantinhas medicinais dessas que brotam em qualquer lugar, não exigem trato, nada em troca, e estão ali, sempre à mão, prontas a nos confortar e curar. Quem não tem ou teve por perto alguém assim?
Morávamos eu, meu irmão Jeovah e o primo Altamir com o tio Miguel, funcionário da carpintaria do DAE e retratista nas horas vagas. O barraco do tio compunha-se de uma sala-cozinha com mesa rústica de madeira e cadeiras, prateleira também de madeira, e, ao lado, um fogão a gás e outro pequeno, elétrico. Entre a sala e o quarto do tio, à esquerda, havia uma pequena câmara escura feita com Duratex, onde ele revelava as fotografias. No quarto do tio, encostada na parede, ficava a cama. Acima desta, sobre uma pequena plataforma de madeira improvisada e pregada na parede (também de madeira), ficava um rádio que mandavam ver (kkkkkkkk).
Paralelo ao quarto do tio, ao fundo da sala-cozinha, havia um beco espremido e improvisado que abrigava o beliche onde dormíamos: eu na parte de cima e o Tamiro na parte de baixo. Como tinha ratos na Velha Cap e adjacências! Eram ratazanas enormes. Como eu dormia na parte de cima, observava quando passavam ao lado, sobre a trave do teto. Por diversas vezes logrei pegar um rabo pendurado, e a descuidada espocava no chão.
Era tanto rato que, abaixo da bifurcação da rua, no barraco do Minerim (Horeni) — na esquina de baixo, num puxado colado à pensão do Nero e da Dona Mirtes —, nós retirávamos uma tábua solta do assoalho. Colocávamos um punhadinho de comida na entrada dos buracos e, com um laço na ponta de um barbante posicionado entre o buraco e a comida, ficávamos esperando. Quando as patinhas do danado passavam, nós o fisgávamos!
Depois, trocávamos os ratos com o Adônis, um garoto da Velha Cap que criava uma jiboia e a alimentava com eles. Em troca, ganhávamos picolés daqueles de geladeira. A mãe dele fazia os picolés para vender, e aquilo era um luxo! Nos fundos, o barraco do tio Miguel comunicava-se com um puxado onde moravam a Prima Neném com o marido João e os filhos Lena, Jeová e Elenice, todos pequenos, além do Juarez (ainda bebê).

(continua)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 2


.........Escola Classe Júlia Kubitschek a primeira escola de Brasilia..em completo abandono,. sem a rampa de acesso dos alunos a salas de aula..   descaso dos administradores para com a história da cidade...


Capitulo 3



.Velha Cap!!! Candanga!!! o Júlia...!!!


Imagens de memórias — rebuscadas, fugidias, ausentes da história oficial...

Que espécie de aplicativo desenvolveu a administração do Distrito Federal para compactar uma história, construída no dia a dia pelo comum do povo, em poucas fotografias na tela do computador? A alma não copia. Revolta-se. Do comum do povo, restou um vazio acervo. Há cartões-postais abundantes com edificações grandiosas, quadras planejadas, primorosas, e o elegante comércio das entrequadras — tudo de suor operário argamassado, mas a eles não destinado. Seus acampamentos e aglomerados sequer foram fotografados antes que fossem demolidos e transportados.

Procura-se — nos HDs internos do povo e nas prosas — o que falta de memória. Longe de palanques, de verbas, do incentivo e do roteiro turístico oficial: busca-se o verdadeiro, que aos poucos se extingue. Até quando a saudade e a prosa dos pioneiros poderá fazer com que a Velha Cap ressurja das brumas do tempo?

Uma Velha Cap... a Candanga... o Júlia Kubitschek. Hoje, a Escola Classe Júlia Kubitschek, a primeira escola de Brasília, encontra-se em completo abandono. Sem a rampa de acesso dos alunos às salas de aula, ela sofre com o descaso dos administradores para com a história da cidade. Acampamentos e alojamentos que antes pululavam abundantes agora estão ausentes, sequer registrados em fotografias.

De olvidadas palavras e sombras — como em um papel fotográfico imerso no recipiente químico —, que o bulício de imagens aos poucos ressurja em nossas memórias: um IAPI, embora esmaecido; os contornos do Morro do Urubu; uma Vila Amauri que emerja; o DAE, o DTUI, o DFL... Que venha o entorno de aglomerados. Por mais humildes que sejam, essa é a história verdadeira. Um preencher de lacunas e momentos olvidados no tempo. Retalhos da história jogados fora do cesto e do contexto: uma cisura.


Velha Cap... Candanga... Rua dos Correios... o barraco do meu tio. Poucos metros acima da bifurcação da rua, o chão era salpicado por mosaicos do jogo de finca e casinhas do jogo de bilocas à frente.

O menino ajeita uns poucos e orelhados cadernos debaixo do braço e segue em direção aos Correios, pegando a ruazinha logo após o largo — um geminado de moradores — que desembocava no Júlia.

A travessia cruzava a avenida com postos de gasolina que dava acesso, por um lado, ao Plano Piloto e ao Guará, e por outro, ao Gama, ao Núcleo Bandeirante e a Taguatinga. Duas vertentes de trânsito, uma acima e outra abaixo da avenida, demandavam como vias principais, dividindo, cortando e se distribuindo por todo o acampamento.

Adentrava-se pela via de cima, defronte ao antigo campo do Guará (o Clube de Regatas Guará). Havia uma faixa de cerrado com um campinho de futebol de várzea entre as duas pistas. Logo mais à frente, em torno dos antigos órgãos da administração do DF, surgia o aglomerado.

Na entrada de baixo, logo à direita, ficava um geminado — como vários que havia — destinado aos funcionários graduados dos órgãos ali instalados pela Novacap. Em uma daquelas moradias, servira ao célebre engenheiro Bernardo Sayão e sua família. Em outra daquelas casas, residira minha querida e inesquecível professora Alcione. E também o José Fernando, colega de sala de aula em cuja casa, em certa visita, deparei-me com um telefone de gancho que eu até então não conhecia. Ele me colocou para falar com outro colega e, ao ouvir a voz saindo do aparelho, tive uma longa crise de riso.

Passava-se, então, por uma fileira de barracos à esquerda e pelo galpão dos transportes, direcionando-se rumo à Candangolândia. Abaixo, e após o geminado à direita, ficava parte do aglomerado da Velha Cap: o Juizado de Menores, alojamentos diversos, o Presídio da Rua do Sossego e órgãos como o DVO, o DPJ e a Cerâmica — resquícios do antigo DFL, que à época já havia sido transferido.

No trecho anterior à bifurcação que originava a Rua dos Correios — e uma outra rua da qual não recordo a denominação —, concentrava-se o grosso do comércio local. Era ali que ficava a venda do Neri, do Cardoso, do Ceará e do seu Nem. Tinha também a pensão do Nero e da dona Mirtes.

Mais abaixo, no princípio da rua que derivava de uma outra em sentido oposto, tinha-se a venda do Bulu — parente do seu Nem — e um outro comércio mais abaixo, de quem me fugiu o nome, também parente do Bulu e do seu Nem. Do outro lado da rua, ficava o “inferninho” dançante da dona Lurdes e do Antônio Gravatinha...