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CAPÍTULO 3
Um coro juvenil espraia as estrofes do hino nacional nas imediações do Júlia. O menino aperta o passo, atravessa o portão e se detém, empertigando-se. Comportávamos-nos assim quando chegávamos atrasados em meio à solenidade que acontecia antes do início das aulas, no térreo do prédio principal.
A Escola Classe Júlia Kubitschek, cópia quase fiel do Catetinho — residência oficial do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira —, compunha-se do prédio principal e dois anexos. À esquerda do prédio principal, olhando-se do portão para dentro, o terreno abrigava uma pequena piscina desativada e um parquinho roto... Isto na época. Ao fundo, no térreo do prédio, ficava a diretoria, onde a dona Mireta, a diretora, trabalhava. Ao lado, a cozinha da Dona Ana, a merendeira, mãe do Peca e do Valdimar (um goleiro dos bons).
Rampa acima ficava o corredor com as salas de aula. Lembro-me das professoras da época: Dona Marta, Dona Elizabeth, Dona Meriel, Dona Alcione, Dona Regina, Dona Dalva e outras, não menos importantes, que me fugiram à memória.
Inesquecível professora, a Dona Alcione! Transformara um aluno desatento em exemplo para toda a classe e escola, a ponto de fazê-lo apresentar-se diante de todos com o texto na ponta da língua. Pena que, em pouco tempo, ela foi transferida, e os efeitos logo se reverteram.
A professora Dona Regina gozava de grande popularidade entre os alunos de todas as classes. Gostava de esportes e acabou por organizar um torneio interclasses de futebol. Que entusiasmo! Cada classe organizou o seu time. Eu jogava no gol de um time de moleques da Velha Cap e fechava o gol, modéstia à parte. Minha classe, o terceiro ano (um grupinho preponderante), impôs o "Gato", um colega de sala, na posição. Vi-me excluído. Calado, chateado e inconformado eu fiquei. [1]
No segundo ano jogavam o Piau, o Lade e o Ceará, integrantes do timinho da Velha Cap como eu. Eles entenderam a situação e convenceram a professora a me incluir para atuar no gol do time deles. O segundo ano acabou por se sagrar campeão do torneio! Fechei o gol, claro.
A partir de então, o time da Velha Cap se mesclou com os colegas da Candangolândia: o Zé Alves, o Totó, o Jaime, o Jorge, entre outros. Esse time logo se desfaria com a demolição dos barracos da Velha Cap e o transporte dos moradores para a região de Planaltina, no DF. Mas, pelo que eu me lembre, embora os jogos fossem esporádicos, nunca perdemos. Jogamos até com os garotos da L2, no Plano Piloto.
A Velha Cap era um rebuliço com sua gente alegre e simples. Do conforto dos dias de hoje quase nada tinha, a não ser o rádio, ativo em toda parte. O transeunte que o diga! Mandavam ver nas músicas dos Beatles e outros sucessos da Jovem Guarda, deixando a Velha Guarda eclipsada. Aparelho de TV? Poucos tinham. Era bonito de se ver as salas apinhadas de vizinhos e moleques, e até gente do lado de fora, "brechando" através das frestas nas paredes de tábua. Desse modo acompanhei Perdidos no Espaço, Telecatch, Família Trapo, entre outros programas.
Quanta gente boa... Gente como a Prima Neném. Pareciam-se com plantinhas medicinais dessas que brotam em qualquer lugar, não exigem trato, nada em troca, e estão ali, sempre à mão, prontas a nos confortar e curar. Quem não tem ou teve por perto alguém assim?
Morávamos eu, meu irmão Jeovah e o primo Altamir com o tio Miguel, funcionário da carpintaria do DAE e retratista nas horas vagas. O barraco do tio compunha-se de uma sala-cozinha com mesa rústica de madeira e cadeiras, prateleira também de madeira, e, ao lado, um fogão a gás e outro pequeno, elétrico. Entre a sala e o quarto do tio, à esquerda, havia uma pequena câmara escura feita com Duratex, onde ele revelava as fotografias. No quarto do tio, encostada na parede, ficava a cama. Acima desta, sobre uma pequena plataforma de madeira improvisada e pregada na parede (também de madeira), ficava um rádio que mandavam ver (kkkkkkkk).
Paralelo ao quarto do tio, ao fundo da sala-cozinha, havia um beco espremido e improvisado que abrigava o beliche onde dormíamos: eu na parte de cima e o Tamiro na parte de baixo. Como tinha ratos na Velha Cap e adjacências! Eram ratazanas enormes. Como eu dormia na parte de cima, observava quando passavam ao lado, sobre a trave do teto. Por diversas vezes logrei pegar um rabo pendurado, e a descuidada espocava no chão.
Era tanto rato que, abaixo da bifurcação da rua, no barraco do Minerim (Horeni) — na esquina de baixo, num puxado colado à pensão do Nero e da Dona Mirtes —, nós retirávamos uma tábua solta do assoalho. Colocávamos um punhadinho de comida na entrada dos buracos e, com um laço na ponta de um barbante posicionado entre o buraco e a comida, ficávamos esperando. Quando as patinhas do danado passavam, nós o fisgávamos!
Depois, trocávamos os ratos com o Adônis, um garoto da Velha Cap que criava uma jiboia e a alimentava com eles. Em troca, ganhávamos picolés daqueles de geladeira. A mãe dele fazia os picolés para vender, e aquilo era um luxo! Nos fundos, o barraco do tio Miguel comunicava-se com um puxado onde moravam a Prima Neném com o marido João e os filhos Lena, Jeová e Elenice, todos pequenos, além do Juarez (ainda bebê).

Terei muito prazer em ler tudo... bjs amigo
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