
![]() |
| www.ipatrimonio.org |
...Primeira igreja de Brasília repare no estado já em abandono, tinha um coreto do lado, era freqüentada e amada pelo povo...
![]() |
| wikimapia |

![]() |
| www.ipatrimonio.org |
![]() |
| wikimapia |
![]() |
| www.rese archgate. |

Imagens de memórias — rebuscadas, fugidias,
ausentes da história oficial...
Que espécie de aplicativo desenvolveu a
administração do Distrito Federal para compactar uma história, construída no
dia a dia pelo comum do povo, em poucas fotografias na tela do computador? A
alma não copia. Revolta-se. Do comum do povo, restou um vazio acervo. Há
cartões-postais abundantes com edificações grandiosas, quadras planejadas,
primorosas, e o elegante comércio das entrequadras — tudo de suor operário
argamassado, mas a eles não destinado. Seus acampamentos e aglomerados sequer
foram fotografados antes que fossem demolidos e transportados.
Procura-se — nos HDs internos do povo e nas prosas
— o que falta de memória. Longe de palanques, de verbas, do incentivo e do
roteiro turístico oficial: busca-se o verdadeiro, que aos poucos se extingue.
Até quando a saudade e a prosa dos pioneiros poderá fazer com que a Velha Cap
ressurja das brumas do tempo?
Uma Velha Cap... a Candanga... o Júlia Kubitschek.
Hoje, a Escola Classe Júlia Kubitschek, a primeira escola de Brasília,
encontra-se em completo abandono. Sem a rampa de acesso dos alunos às salas de
aula, ela sofre com o descaso dos administradores para com a história da
cidade. Acampamentos e alojamentos que antes pululavam abundantes agora estão
ausentes, sequer registrados em fotografias.
De olvidadas palavras e sombras — como em um papel
fotográfico imerso no recipiente químico —, que o bulício de imagens aos poucos
ressurja em nossas memórias: um IAPI, embora esmaecido; os contornos do Morro
do Urubu; uma Vila Amauri que emerja; o DAE, o DTUI, o DFL... Que venha o
entorno de aglomerados. Por mais humildes que sejam, essa é a história
verdadeira. Um preencher de lacunas e momentos olvidados no tempo. Retalhos da
história jogados fora do cesto e do contexto: uma cisura.
Velha Cap... Candanga... Rua dos Correios... o
barraco do meu tio. Poucos metros acima da bifurcação da rua, o chão era
salpicado por mosaicos do jogo de finca e casinhas do jogo de bilocas à frente.
O menino ajeita uns poucos e orelhados cadernos
debaixo do braço e segue em direção aos Correios, pegando a ruazinha logo após
o largo — um geminado de moradores — que desembocava no Júlia.
A travessia cruzava a avenida com postos de
gasolina que dava acesso, por um lado, ao Plano Piloto e ao Guará, e por outro,
ao Gama, ao Núcleo Bandeirante e a Taguatinga. Duas vertentes de trânsito, uma
acima e outra abaixo da avenida, demandavam como vias principais, dividindo,
cortando e se distribuindo por todo o acampamento.
Adentrava-se pela via de cima, defronte ao antigo
campo do Guará (o Clube de Regatas Guará). Havia uma faixa de cerrado com um
campinho de futebol de várzea entre as duas pistas. Logo mais à frente, em
torno dos antigos órgãos da administração do DF, surgia o aglomerado.
Na entrada de baixo, logo à direita, ficava um
geminado — como vários que havia — destinado aos funcionários graduados dos
órgãos ali instalados pela Novacap. Em uma daquelas moradias, servira ao
célebre engenheiro Bernardo Sayão e sua família. Em outra daquelas casas,
residira minha querida e inesquecível professora Alcione. E também o José
Fernando, colega de sala de aula em cuja casa, em certa visita, deparei-me com
um telefone de gancho que eu até então não conhecia. Ele me colocou para falar
com outro colega e, ao ouvir a voz saindo do aparelho, tive uma longa crise de
riso.
Passava-se, então, por uma fileira de barracos à
esquerda e pelo galpão dos transportes, direcionando-se rumo à Candangolândia.
Abaixo, e após o geminado à direita, ficava parte do aglomerado da Velha Cap: o
Juizado de Menores, alojamentos diversos, o Presídio da Rua do Sossego e órgãos
como o DVO, o DPJ e a Cerâmica — resquícios do antigo DFL, que à época já havia
sido transferido.
No trecho anterior à bifurcação que originava a Rua
dos Correios — e uma outra rua da qual não recordo a denominação —,
concentrava-se o grosso do comércio local. Era ali que ficava a venda do Neri,
do Cardoso, do Ceará e do seu Nem. Tinha também a pensão do Nero e da dona
Mirtes.
Mais abaixo, no princípio da rua que derivava de
uma outra em sentido oposto, tinha-se a venda do Bulu — parente do seu Nem — e
um outro comércio mais abaixo, de quem me fugiu o nome, também parente do Bulu
e do seu Nem. Do outro lado da rua, ficava o “inferninho” dançante da dona
Lurdes e do Antônio Gravatinha...
Rebusquei no banco de memórias... 1966... E me vi
com meu tio Miguel — hoje falecido —, quando nos buscou em Goiânia, a mim e
meus irmãos, um ano após a morte de nosso querido pai.
Fomos morar na Velha Cap, na Rua dos Correios, do
lado direito da bifurcação que, a certa altura, se dividia. Passei a viver ali,
na casa do tio: um barraco rústico de madeira, como quase todos à época.
A Velha Cap e a Candangolândia foram se ajeitando
em torno das estatais e dos alojamentos da época: DVO, DPJ, DFL, Juizado de
Menores, o Presídio da Rua do Sossego, os Correios e o setor de Transportes. De
um lado, no alto, ficava a Velha Cap. Abaixo, separada por um promontório
acascalhado e riscado por trilheiros, estava a Candangolândia.
Meu tio me matriculou na Escola Classe
Júlia Kubitschek, a primeira escola construída em Brasília. Ela situava-se
em um dos lados da Velha Cap, tendo a ponta da Candangolândia ao fundo. Mais
adiante, ficava a mata do Jardim Zoológico com o córrego Vicente Pires, que
costeava a região desde a Metropolitana, passando pelo Núcleo Bandeirante,
Velha Cap e fundos do zoológico, até desaguar na ponta sul do Lago Paranoá.
Na outra margem do córrego, após uma estrada de
terra que adentrava a mata, havia uma velha ponte de madeira. Antes dela, um
pouco mais adentro na beira da estrada, ficava a chácara de produção e
manutenção do zoológico. Após cruzar a ponte, adiante e à esquerda,
encontravam-se resquícios de antigas construções. À direita, funcionavam
algumas poucas empresas e, mais à frente, ficava o acampamento do DAE.
Essa estrada começava na Velha Cap e passava pelo
DVO, pela cerâmica e pelo DPJ — que tinha um campo de futebol ao fundo, muito
utilizado pelos operários. Um pouco mais adiante, a via desembocava na Rua do
Sossego, onde ficava o presídio, o primeiro de Brasília.
Olhando do portão da Escola Júlia Kubitschek, na
rua à frente e à esquerda, havia uma fileira de barracos. Era ali que morava o
Augusto Costa, o "Agustim", meu grande amigo. A casa dele era uma das
poucas com água encanada (naquela época, não se pagava por ela, tampouco pela
energia).
A maioria dos outros moradores dependia dos
caminhões-pipa. Quando eles atrasavam — o que era frequente —, a gente
carregava água no ombro, em latas, ou em carrinhos de mão, pegando direto da
torneira que ficava no quintal do Agustim. Eu e outros moleques ganhávamos uns
trocados fazendo esse serviço.
Virando os olhos à direita e um pouco acima,
avisttava se uma das pontas da Velha Cap. Mais adiante o
galpão dos transportes e, ao redor, os aglomerados de barracos e ruas. À direita e paralela a fundos da escola, existia um conjunto geminado de moradias conhecido como "As
Dez Mais", destinado aos funcionários graduados da Novacap. Lá morava
o Ênio, meu colega de sala, e seu irmão Edmar. Um pouco mais abaixo, ficava a
Escola Zoobotânica.
Deixemos a bela e acolhedora metrópole “ecologicamente correta”,
com suas belas avenidas e ônibus superlotados,
e reportemos à nossa bucólica e querida Vila Boa...
Espécie de ego comum,
tributar-se-á à Vila Boa
do emocional de cada um,
de cada psico-Cidadela...
em matizes de areias...
pegadas e aquarelas...
da matéria do sertão...
no cinzel de Veiga Valle,
arte, sopro, emoção...
Ponto de convergência
é a casa da ponte...
absorve com ciência...
do coração da poetisa...
apurado no tacho...
onde tudo sintetiza...
de ruas e das vielas...
dos ecos no dia a dia
sussurrados sob a ponte...
murmurando Poesia...
Rompido de corações
e testado na desventura,
o sentimento cidadão,
cidade comunidade,
concertado na comoção,
rompera da cidadela,
extrapolara o sertão,
adensando no trajeto
opiniões e fragmentos...
no esboço do projeto,
resultado da coletânea
de um esforço coletivo,
de maneira espontânea...
uma doação sincera...
do azulejo do sobrado
ao chão batido da tapera.
Rebrotada da poesia,
burilada no sertão,
Vila Boa renascida
da feliz interação.
Cidade comunidade
configura patrimônio
pra toda humanidade.
Repercute da televisão
um festival que fica...
destilando cultura
e atraindo turistas,
enquanto se festeja
um alerta, quem sabe,
da própria natureza,
e o saldo da inundação
que depredou o cenário
na pluvial precipitação,
um sonho fragmentado...
caco a caco colado,
a solidariedade juntara,
e a cruz do Anhanguera
ao pedestal retornara...
apontasse contradição...
soaria deselegante...
após a reconstrução...
depreciar um território
de ninhos e de tocas...
de nascentes, voçorocas...
encontrasse eu motivo...
que lograsse penetrar...
o inconsciente coletivo...
na auditiva sugestão
de um ranger na madeira,
despertasse a atenção...
oxalá isto comovesse...
E a sorte do desvalido...
despertasse o interesse...
e apoio ao desajustado,
mãos se estendessem...
de tratados então rompesse
o princípio da igualdade,
amalgamando na diversidade...
um patrimônio, solidariedade...
Grupo de bóias-frias, envolvido pela neblina,
à espera de condução... cena comum no interior do país...
O despejo da diversidade
em prol da monocultura
potencia desigualdades,
a ciranda da concentração
sob a égide do latifúndio
sacramenta a exploração.
Aduba o êxodo rural...
e o futuro na educação...
é argumento definitivo...
Portanto, dos pertences apurado,
e o resto no caminhão aboletado...
sacoleja-se agora a família...
mais uma do campo rumo à periferia.
A esteira do caminhão...
uma poeira de estrada...
na despedida do sertão...
escoa doce e sagrada...
escoando um rincão...
embaciando olhares...
argamassando no pranto...
impregnando pesares...
semeiando em barranco...
um desses da periferia,
uma família do campo
a colher necessidades
e amargar no desemprego,
um bico e a boa vontade
configura no contexto...
a necessidade do pão...
aproximando rejeitos...
um destino... o lixão...
Epílogo 1
Sob o filete tênue de fumaça que serpenteia esmaecendo...
o naco de carvão acaba por extinguir-se, desintegrando...
Final de ato...
os fantasmas envoltos em fuligem vão se recolhendo,
e o cenário agora parece acomodar-se,
entregue às moscas e ao companheiro Totó...
num canto, com a pança estufada,
e a vaguear por brumas etílicas,
o churrasqueiro dormita esparramado numa rede...
Epílogo 2
Sobre o caixote improvisado de mesa
e em meio a restos do "churrasquinho de gato",
uma garrafa vazia, um copo por terminar
e um esboço sofrível fermentam
sob improvisadas cortinas
que se revolvem na janela do cortiço.