segunda-feira, 10 de maio de 2010

Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 2


.........Escola Classe Júlia Kubitschek a primeira escola de Brasilia..em completo abandono,. sem a rampa de acesso dos alunos a salas de aula..   descaso dos administradores para com a história da cidade...


Capitulo 3



.Velha Cap!!! Candanga!!! o Júlia...!!!


Imagens de memórias — rebuscadas, fugidias, ausentes da história oficial...

Que espécie de aplicativo desenvolveu a administração do Distrito Federal para compactar uma história, construída no dia a dia pelo comum do povo, em poucas fotografias na tela do computador? A alma não copia. Revolta-se. Do comum do povo, restou um vazio acervo. Há cartões-postais abundantes com edificações grandiosas, quadras planejadas, primorosas, e o elegante comércio das entrequadras — tudo de suor operário argamassado, mas a eles não destinado. Seus acampamentos e aglomerados sequer foram fotografados antes que fossem demolidos e transportados.

Procura-se — nos HDs internos do povo e nas prosas — o que falta de memória. Longe de palanques, de verbas, do incentivo e do roteiro turístico oficial: busca-se o verdadeiro, que aos poucos se extingue. Até quando a saudade e a prosa dos pioneiros poderá fazer com que a Velha Cap ressurja das brumas do tempo?

Uma Velha Cap... a Candanga... o Júlia Kubitschek. Hoje, a Escola Classe Júlia Kubitschek, a primeira escola de Brasília, encontra-se em completo abandono. Sem a rampa de acesso dos alunos às salas de aula, ela sofre com o descaso dos administradores para com a história da cidade. Acampamentos e alojamentos que antes pululavam abundantes agora estão ausentes, sequer registrados em fotografias.

De olvidadas palavras e sombras — como em um papel fotográfico imerso no recipiente químico —, que o bulício de imagens aos poucos ressurja em nossas memórias: um IAPI, embora esmaecido; os contornos do Morro do Urubu; uma Vila Amauri que emerja; o DAE, o DTUI, o DFL... Que venha o entorno de aglomerados. Por mais humildes que sejam, essa é a história verdadeira. Um preencher de lacunas e momentos olvidados no tempo. Retalhos da história jogados fora do cesto e do contexto: uma cisura.


Velha Cap... Candanga... Rua dos Correios... o barraco do meu tio. Poucos metros acima da bifurcação da rua, o chão era salpicado por mosaicos do jogo de finca e casinhas do jogo de bilocas à frente.

O menino ajeita uns poucos e orelhados cadernos debaixo do braço e segue em direção aos Correios, pegando a ruazinha logo após o largo — um geminado de moradores — que desembocava no Júlia.

A travessia cruzava a avenida com postos de gasolina que dava acesso, por um lado, ao Plano Piloto e ao Guará, e por outro, ao Gama, ao Núcleo Bandeirante e a Taguatinga. Duas vertentes de trânsito, uma acima e outra abaixo da avenida, demandavam como vias principais, dividindo, cortando e se distribuindo por todo o acampamento.

Adentrava-se pela via de cima, defronte ao antigo campo do Guará (o Clube de Regatas Guará). Havia uma faixa de cerrado com um campinho de futebol de várzea entre as duas pistas. Logo mais à frente, em torno dos antigos órgãos da administração do DF, surgia o aglomerado.

Na entrada de baixo, logo à direita, ficava um geminado — como vários que havia — destinado aos funcionários graduados dos órgãos ali instalados pela Novacap. Em uma daquelas moradias, servira ao célebre engenheiro Bernardo Sayão e sua família. Em outra daquelas casas, residira minha querida e inesquecível professora Alcione. E também o José Fernando, colega de sala de aula em cuja casa, em certa visita, deparei-me com um telefone de gancho que eu até então não conhecia. Ele me colocou para falar com outro colega e, ao ouvir a voz saindo do aparelho, tive uma longa crise de riso.

Passava-se, então, por uma fileira de barracos à esquerda e pelo galpão dos transportes, direcionando-se rumo à Candangolândia. Abaixo, e após o geminado à direita, ficava parte do aglomerado da Velha Cap: o Juizado de Menores, alojamentos diversos, o Presídio da Rua do Sossego e órgãos como o DVO, o DPJ e a Cerâmica — resquícios do antigo DFL, que à época já havia sido transferido.

No trecho anterior à bifurcação que originava a Rua dos Correios — e uma outra rua da qual não recordo a denominação —, concentrava-se o grosso do comércio local. Era ali que ficava a venda do Neri, do Cardoso, do Ceará e do seu Nem. Tinha também a pensão do Nero e da dona Mirtes.

Mais abaixo, no princípio da rua que derivava de uma outra em sentido oposto, tinha-se a venda do Bulu — parente do seu Nem — e um outro comércio mais abaixo, de quem me fugiu o nome, também parente do Bulu e do seu Nem. Do outro lado da rua, ficava o “inferninho” dançante da dona Lurdes e do Antônio Gravatinha...


sexta-feira, 7 de maio de 2010

Retalho de memórias...Velha Cap DF.


                                                                                                                       



Rebusquei no banco de memórias... 1966... E me vi com meu tio Miguel — hoje falecido —, quando nos buscou em Goiânia, a mim e meus irmãos, um ano após a morte de nosso querido pai.

Fomos morar na Velha Cap, na Rua dos Correios, do lado direito da bifurcação que, a certa altura, se dividia. Passei a viver ali, na casa do tio: um barraco rústico de madeira, como quase todos à época.

A Velha Cap e a Candangolândia foram se ajeitando em torno das estatais e dos alojamentos da época: DVO, DPJ, DFL, Juizado de Menores, o Presídio da Rua do Sossego, os Correios e o setor de Transportes. De um lado, no alto, ficava a Velha Cap. Abaixo, separada por um promontório acascalhado e riscado por trilheiros, estava a Candangolândia.

Meu tio me matriculou na Escola Classe Júlia Kubitschek, a primeira escola construída em Brasília. Ela situava-se em um dos lados da Velha Cap, tendo a ponta da Candangolândia ao fundo. Mais adiante, ficava a mata do Jardim Zoológico com o córrego Vicente Pires, que costeava a região desde a Metropolitana, passando pelo Núcleo Bandeirante, Velha Cap e fundos do zoológico, até desaguar na ponta sul do Lago Paranoá.

Na outra margem do córrego, após uma estrada de terra que adentrava a mata, havia uma velha ponte de madeira. Antes dela, um pouco mais adentro na beira da estrada, ficava a chácara de produção e manutenção do zoológico. Após cruzar a ponte, adiante e à esquerda, encontravam-se resquícios de antigas construções. À direita, funcionavam algumas poucas empresas e, mais à frente, ficava o acampamento do DAE.

Essa estrada começava na Velha Cap e passava pelo DVO, pela cerâmica e pelo DPJ — que tinha um campo de futebol ao fundo, muito utilizado pelos operários. Um pouco mais adiante, a via desembocava na Rua do Sossego, onde ficava o presídio, o primeiro de Brasília.

Olhando do portão da Escola Júlia Kubitschek, na rua à frente e à esquerda, havia uma fileira de barracos. Era ali que morava o Augusto Costa, o "Agustim", meu grande amigo. A casa dele era uma das poucas com água encanada (naquela época, não se pagava por ela, tampouco pela energia).

A maioria dos outros moradores dependia dos caminhões-pipa. Quando eles atrasavam — o que era frequente —, a gente carregava água no ombro, em latas, ou em carrinhos de mão, pegando direto da torneira que ficava no quintal do Agustim. Eu e outros moleques ganhávamos uns trocados fazendo esse serviço.

Virando os olhos à direita e um pouco acima, avisttava se uma das pontas da Velha Cap. Mais adiante o galpão dos transportes e, ao redor, os aglomerados de barracos e ruas. À direita e paralela a fundos da escola, existia um conjunto geminado de moradias conhecido como "As Dez Mais", destinado aos funcionários graduados da Novacap. Lá morava o Ênio, meu colega de sala, e seu irmão Edmar. Um pouco mais abaixo, ficava a Escola Zoobotânica.



"As Dez Mais": Esse nome do conjunto geminado é uma preciosidade

terça-feira, 30 de março de 2010

O canto da terra 4

Deixemos a bela e acolhedora metrópole “ecologicamente correta”,
com suas belas avenidas e ônibus superlotados,
e reportemos à nossa bucólica e querida Vila Boa...

Espécie de ego comum,
tributar-se-á à Vila Boa
do emocional de cada um,
de cada psico-Cidadela...
em matizes de areias...
pegadas e aquarelas...
da matéria do sertão...
no cinzel de Veiga Valle,
arte, sopro, emoção...

Ponto de convergência
é a casa da ponte...
absorve com ciência...
do coração da poetisa...
apurado no tacho...
onde tudo sintetiza...
de ruas e das vielas...
dos ecos no dia a dia
sussurrados sob a ponte...
murmurando Poesia...

Rompido de corações
e testado na desventura,
o sentimento cidadão,
cidade comunidade,
concertado na comoção,
rompera da cidadela,
extrapolara o sertão,
adensando no trajeto
opiniões e fragmentos...
no esboço do projeto,
resultado da coletânea
de um esforço coletivo,
de maneira espontânea...
uma doação sincera...
do azulejo do sobrado
ao chão batido da tapera.

Rebrotada da poesia,
burilada no sertão,
Vila Boa renascida
da feliz interação.
Cidade comunidade
configura patrimônio
pra toda humanidade.

Repercute da televisão
um festival que fica...
destilando cultura
e atraindo turistas,
enquanto se festeja
um alerta, quem sabe,
da própria natureza,
e o saldo da inundação
que depredou o cenário
na pluvial precipitação,
um sonho fragmentado...
caco a caco colado,
a solidariedade juntara,
e a cruz do Anhanguera
ao pedestal retornara...
apontasse contradição...
soaria deselegante...
após a reconstrução...
depreciar um território
de ninhos e de tocas...
de nascentes, voçorocas...
encontrasse eu motivo...
que lograsse penetrar...
o inconsciente coletivo...
na auditiva sugestão
de um ranger na madeira,
despertasse a atenção...
oxalá isto comovesse...
E a sorte do desvalido...
despertasse o interesse...
e apoio ao desajustado,
mãos se estendessem...
de tratados então rompesse
o princípio da igualdade,
amalgamando na diversidade...
um patrimônio, solidariedade...

Grupo de bóias-frias, envolvido pela neblina,
à espera de condução... cena comum no interior do país...

O despejo da diversidade
em prol da monocultura
potencia desigualdades,
a ciranda da concentração
sob a égide do latifúndio
sacramenta a exploração.
Aduba o êxodo rural...
e o futuro na educação...
é argumento definitivo...

Portanto, dos pertences apurado,
e o resto no caminhão aboletado...
sacoleja-se agora a família...
mais uma do campo rumo à periferia.

A esteira do caminhão...
uma poeira de estrada...
na despedida do sertão...
escoa doce e sagrada...
escoando um rincão...
embaciando olhares...
argamassando no pranto...
impregnando pesares...
semeiando em barranco...
um desses da periferia,
uma família do campo
a colher necessidades
e amargar no desemprego,
um bico e a boa vontade
configura no contexto...
a necessidade do pão...
aproximando rejeitos...
um destino... o lixão...

Epílogo 1

Sob o filete tênue de fumaça que serpenteia esmaecendo...
o naco de carvão acaba por extinguir-se, desintegrando...
Final de ato...
os fantasmas envoltos em fuligem vão se recolhendo,
e o cenário agora parece acomodar-se,
entregue às moscas e ao companheiro Totó...
num canto, com a pança estufada,
e a vaguear por brumas etílicas,
o churrasqueiro dormita esparramado numa rede...

Epílogo 2

Sobre o caixote improvisado de mesa
e em meio a restos do "churrasquinho de gato",
uma garrafa vazia, um copo por terminar
e um esboço sofrível fermentam
sob improvisadas cortinas
que se revolvem na janela do cortiço.



O canto da terra 3

(Sendo trabalhado)

... Basta de se encher lingüiça e vamos enfim  aos fatos...

com a palavra o naco...sim um grande naco de carvão !!!

(Esclarecimento) O texto procura refletir embora pobremente sobre parte da História de Goiás,foi escrito a muito tempo e em muitos aspectos deixa a desejar ...Vale pela imaginação.

.O canto do tabocal 3

Com a palavra um naco de carvão

De pleno voo eu despencara
em vertiginosa queda...
do bico de uma arara...
salivado e em frangalhos,
insepulto eu germinara...
de casulo entranhado...
lá no interior de Goiás...
no bioma do cerrado...
o recanto agregava...
o cerrado florescia...
Prenúncio de doação...
odor, textura e magia...

Bico a bico me espalhando,
naveguei por intempéries,
entranhado pelo âmago,
palmilhei todo o sertão...
de estômago a estômago...
varei rios e traspus serras,
semeei por vales e campinas
e pactuei com filhos da terra.

...Fim de ato... desce o pano...


Cenário

...Beira de rio... uma clareira...

Personagens

...Índios e homens rústicos e um prato com aguardente...

O vento sopra nas palmeiras,
e no farfalhar de folhas, uma algazarra de pássaros
saúda um sol que brota da serra
e rasga a névoa...

As cortinas se abrem,
introduz-se o inusitado,
traz na bacia um blefe...
nunca visto no cerrado,
rouba a cena, alucina,
espalha, consome o rio,
entorpece nas retinas,
embriaga e incinera
na lagoa que calcina,
na taba que depaupera,
no índio que cambaleia:
Anhanguera... Anhanguera.

No torvelinho campeia
brilho torvo, faiscante,
movimento de bateias
nos olhos do bandeirante...
vi o índio subjugado,
evadir-se de momento,
embrenhando no cerrado.

Com negros ficou a bateia,
e com os senhores a terra.
Tronco, açoite, cadeias,
na senzala ficou o negro;
o senhor, na casa grande,
o privilégio e o degredo
extrapolam gerações,
recrudecem, reacionam
na cidade e no sertão.

O pobre eu vi na lida...
argamassar desigualdade...
na qualidade de vida...
vi proliferarem arraiais,
e Vila Boa consolidar-se
na capital de Goiás...

Vi notável comissão
registrar no diário...
excelente impressão
sobre o planalto central,
pra se plantar no sertão...
a pedra fundamental...
e brotar selva de pedra
no lugar do vegetal.

Vi uma lei que abolia...
proclamar a república,
detonando a monarquia.
Vi perderem-se os anéis,
e os dedos sobrarem
nas mãos dos coronéis.
Vi o coração imigrante
aportando anarquia...
itinerarem-se ideais...
esboços de democracia...

Vi o privilégio reacionário,
nutrido da corrupção...
mudando de lado
pra manter a posição,
postergar a esperança,
promovendo eleição
em currais eleitorais.
Costurar-se a solução,
e de alhos para bugalhos
perpetrar-se a transição...
e qualquer constrangimento
que desandasse em furdunço
acionar-se um regimento...
ou bacamartes de jagunço...

Vi informes inquietantes
ventilando das gerais...
carregando semblantes,
atordoando maiorais...
rumores de revolução
correrem a boca pequena...
e alarmarem o sertão,
ocorrência de Rio Verde
falando de detenção,
alegrar os maiorais,
provocar descontração,
e novas de Santa Luzia...
alvoroçar a multidão.

Pra sanar o mal do sertão,
designarem um médico,
a necessária operação,
e o efeito talvez colateral
somatizou como desfeita,
e esta mudança capital
permeou-se de contendas,
revoltando, polemizando
da tribuna ao balcão de venda.

(rascunho sob revisão em andamento)

Sob este fogo cruzado,
campinas se sacrifica,
imola o seu passado
e a própria soberania.
Sementes da história
germinham de corações,
abrolham da memória,
renovam nas tradições...
rebrotam um coreto...
reportam uma história...

Vi Goiânia distinguir
e o grande potencial
de toda a parte atrair,
convergir esperança,
polarizar sonhos...
projetar mudanças,
tornar-se cartão postal,
transmutar-se metrópole,
e ocultar um grande mal:
síndrome do progresso...
seria efeito colateral...
e debaixo dos narizes
o mau cheiro é natural...
a desoladora podridão
dos córregos da capital...
a estação de tratamento
celebraria a vida...
abrandaria o constrangimento
de uma outorga indevida...



Você gosta desta personalidade?

segunda-feira, 29 de março de 2010

O canto da terra 2

O canto da terra 2

Na carvoaria, as muitas bocas, com avidez, vão engolindo assimétricos personagens da flora, que se contorce, expressando formas de rara e rústica beleza e que, de certo modo, vão se confundindo com os vultos enegrecidos que, naqueles fornos, encerram o próprio destino.

Escolhera o progresso
um símbolo da fauna
pra cobrança do ingresso.

Foi eleito um leão,
o oficial provador...
das rendas do cidadão.

Causando certo desgosto,
os apetites desta mascote
das rendas tomara gosto.

Doendo muito no bolso,
as mordidas do leão
denominadas imposto.

Para acinte do cidadão,
a esfaimada mascote
associou-se à má gestão.

O execrável consórcio,
para males de pecados,
concebeu o mau negócio.

Desenvolveu, na tolerância,
os frutos de uma gestação:
da corrupção e ganância.

Primogênito, o desemprego,
a ignorância e exclusão,
a insegurança e o medo.

Impõem sobre a nação
os sacrifícios,
e a corrupção corroe os benefícios.

Celebrando a ganância,
a exploração madeireira,
na Amazônia, imola a diversidade
diante da omissão nossa de cada dia...
e dos poderes constituídos.

O canto do tabocal 3

O cacique encomendou
grande olho de SIVAM
pra consorte do IBAMA
lá da corte de Tupã

Na fumaça ofuscou-se
graveto estala da chama
e o cisco incrustou-se
bem no olho do IBAMA

Areia caiu nos olhos
o Juruna proferiu...
o boto perde o charme,
é o mister M no Brasil...

Boitatá foi pra Parintins
caprichou e se garantiu
a Iara virou porta-bandeira
e o Brasil se descobriu

Saci virou um biscateiro
vira-se agora nos trinta
sambando o dia inteiro,
a SUDAM não assistia

A sombra da madeira empilhada
entre gracejos e protestos,
operários comem, contam causos,
anedotas... e depois cochilam...

Um menino retira
um arremedo de flauta de taboca do embornal
leva à boca e, dentre imagens fugidias de sonho,
assopra de improviso...


Na escola do sertão,
à grafite da fuligem,
escreve-se a redação

O dia — a pauta estica
em morosa rotação
o sol empina feito pipa

Volteia como o pião
suor destila em bicas
mina a seiva do sertão

Aprende-se na carvoaria,
na colheita da cana...
ou no barro da olaria...

Um "ó" de obrigação,
como primeira vogal
na escola do sertão...

Sentido de sobrevivência
é o quesito principal
que devora adolescências...

A educação é herança
que o pobre deseja legar —
é espólio de confiança

O sentimento paterno...
a consciência fustiga...
o lápis, livro, caderno...

A projeção do caminho
aponta uma periferia...
na mudança de destino

Virar-se no desemprego...
evitar os descaminhos...
mourejar no subemprego...

Servente de pedreiro...
coletor de reciclável...
ocasional biscateiro...

Matrícula-se o menino...
e nos progressos do filho,
olvida-se o seu destino...

E o menino se esforça —
engraxa parte do dia,
estuda e tem boas notas...

O vestibular é a fechadura...
o diploma do ensino médio,
a chave da formatura...

Nos portais da faculdade,
a chave do ensino público
trava na incompatibilidade...

Um pé de meia na América,
a alternativa deslumbra —
e a aventura se projeta...

Da poupança da família,
da venda de cacarecos
e de partes da mobília

Arremessada uma sorte,
desembarca no México
à procura de um coiote

Acertam de tal maneira —
dentro do porta-malas,
a passagem da fronteira

O deserto e a travessia,
um momento de bobeira,
e o menino se extravia...

Entregue à própria sorte,
o menino perambula,
aos gritos chama o coiote

O deserto é um forno,
o delírio é o pico...
na miragem do retorno

Um menino calcinado...
reencontra na carvoaria
o destino do cerrado...

E se cumpre um ditado:
nasce torto, morre torto...
esquecido e devorado...

O canto da terra 1


                        (Introdução)


                         O canto do tabocal





Parte 1


Saulo

...Mil e uma tentativas... abanadelas sem conta... estalidos... e enfim crepita — azul, laranja, carmim — a pequenina chama bruxuleante...
Fustigada, ela logo se agita, sob um olhar marejado, defumado, de improvisado churrasqueiro.

O lacrimejante "herói" aconchega pedaços de carvão à gema incandescente, estabelecendo um cerco. Chama-lhe a atenção um naco maior de carvão — ele o apanha e o equilibra no topo, cuidadosamente. E enquanto abana, devaneia...

Imagine que, no devanear, fosse transportado a um ponto qualquer do cerrado, do Brasil central — e de tal modo que devaneasse, a leseira toda fosse escapando, espraiando-se, derivando... até emaranhar-se num tabocal das redondezas...




O canto do tabocal

Parte 2

Noite...

Um estufar dcortinas faz a introdução...

Silêncios e ruídos, com estalos e rangidos,

de um tabocal fustigado pelo vento, a contorcer-se,
estabelecendo a tônica.
...Momentos em que, sobre um travesseiro,
o inconsciente evoca imagens fugidias,
esboços que vão surgindo,
envoltos em brumas, cobertos de fuligem,
delineando-se — e, do atritar do tabocal,
como se colossais gafanhotos fora,
ressoa estranha melodia...


Da gávea de caravela...
a luneta volatiza...
o displicente passeio...
de uma íris seduzida...

Uma aquarela brejeira
arrebata as entranhas
da alma portuguesa...
a expressão lusitana

Que acaba por amorenar-se
sobre ondas espraiando
numa cadência baiana —
a expressão lusitana

Contraste na singeleza
do território dos instintos,
propriedades de substâncias
em cartório da natureza —
a expressão lusitana...

Sob a égide da ganância
auspicia-se a solenidade
na aquarela brejeira —
réquiem à diversidade...



A natureza do bioma provê a seus rebentos propriedades e necessidades para uma vida profícua e necessária, de modo a convergirem-se, em mutualismos, comensalismos etc., estabelecendo o ciclo vital de um moto perpétuo...
E, curiosamente, dentre a infinidade entrelaçada de organizações que abrolham, uma delas — e de forma inusitada —, que de códigos naturais atropela, estabelece a exploração de mais fracos...

( edição, continua)



Cenário

Uma carvoaria no cerrado goiano.


Personagens

Madeira empilhada, sacas com carvão, cavacos, lascas e fragmentos. Homens tisnados e crianças obscurecidas.


Áudio

Emanada da servidão, uma cantilena ressoa...
Dor e revolta condensam-se no compasso...
A cada estrofe, um lamento ecoa... contido,  insubmisso...


O tempo é um forno...
oleiro, o movimento...
(um cavaco)

A consciência na roda...
amolda o sentimento...
(outro cavaco)


Nas razões do forno, a ambição predomina...
nas velocidades do torno, o descaso determina...
(a sacaria)


A bigorna é o tempo...
o ferreiro, movimento...
(o primeiro)

A consciência na forja...
aprimora o sentimento...
(o outro)


Egoísmo com ganância tiveram um caso...
brotaram os descasos...
(a sacaria)


O tempo é a página...
o acaso, o tinteiro...
(o primeiro)
o movimento, a pena...
encena a coerência...
(o outro)


A cupidez decreta a insolvência...
a insensatez penhora a sobrevivência...
(a sacaria)


Sintetiza o sofrimento a seiva...
(o primeiro)
suores destilam o lucro...
(o outro)
dividendos apuram os capitais...
(o primeiro)
os operários, a sobrevivência...
(o outro)


O tempo é indústria da reciclagem,
e o universo, uma grande viagem...
(a sacaria)

A canoa é o tempo...
canoeiro, o movimento...
(o primeiro)

No acaso, rima o remo...
na coerência, o ensejo...
(o outro)


O carvão oprimido cristaliza...
e em cadinhos, a alma purifica...
(a sacaria)


Fragmento e Seixo

Feitos siameses, um no outro engastados,
fragmento e seixo em dueto anelado...


Alfa assoprou... in... iang
enfeixou-se o movimento...
percorreu a espiral de sendas,
e a gravidade engendrou-se...
(fragmento)

A gravidade ergueu o pêndulo,
o pêndulo embicou no acaso,
o acaso enredou-se em coerência...
(seixo)

A coerência planeou o formato,
o formato cinzelou o sedimento,
o sedimento incorporou a dualidade...

A dualidade transmutou-se na reatividade,
a reatividade polarizou no instinto,
o instinto entronizou a consciência...
(seixo)

A consciência manifestou a divindade,
a divindade revelou-se nos arcanos,
os arcanos reportaram ao verbo,
e o verbo detonou o Big Bang...
(fragmento)


Do bico do pássaro, o inseto escapa,
e o fragor desesperado no entardecer ressoa,
até paralisar-se numa das redes que alimentam o tráfico...


O passarinho, numa forquilha, tecia o ninho,
voando com alegria — gravetos e fiapinhos...
o passarinho trazia...


Certa manhã... Sobressalto.
Ruído estranho... estrugia.
O campo, tomado de assalto...
Tombava, não resistia...


Ao lado da árvore caída,
um ninho, despedaçado...
e o conteúdo, em fragmentos, jazia...