Na Antiga antiga Escola Classe Júlia Kubitschek, no Distrito Federal, vivi alguns dos momentos mais marcantes de minha infância.

Não era propriamente o que se poderia chamar de aluno exemplar. Distraía-me com facilidade, perdia o foco nas brincadeiras e nem sempre dedicava aos estudos a atenção devida. Mas houve uma professora, dona Alcione, que por alguma razão despertou em mim uma enorme vontade de corresponder às suas expectativas.

Passei a estudar suas lições com afinco. Quando ela fazia perguntas em sala, eu tinha as respostas na ponta da língua. Logo me distinguiu entre os demais alunos e me confiou a tarefa de decorar e apresentar um texto diante de todos os alunos do período noturno. Assim o fiz. Depois anunciou uma peça teatral da qual participaríamos, mas, por razões que desconheço, o projeto não foi adiante. Pouco tempo depois ela foi transferida.

Foram apenas alguns meses, mas que se tornaram inesquecíveis. Quando partiu, voltei a ser o aluno relapso de costume. Ainda hoje, mais de sessenta anos depois, guardo com carinho sua lembrança e o incentivo que me ofereceu.

O Júlia Kubitschek reunia filhos de operários e filhos de funcionários graduados da Novacap. Apesar das diferenças, convivíamos entre brincadeiras, amizades e travessuras próprias da idade.

Entre os muitos acontecimentos daquela época, um permanece gravado em minha memória de forma especial.

Em preparação para uma festa junina, combinaram que alguns alunos entrariam na mata próxima ao Jardim Zoológico para cortar folhas de palmeira destinadas à decoração das barraquinhas. Formou-se um grupo na sala. Eu quase não fui, pois estava envolvido numa pelada de futebol no pátio, mas um colega retardatário chamou-me e resolvi acompanhá-lo.

Já na mata, que eu tanto apreciava, tomei a dianteira. Verguei um palmiteiro para facilitar o corte. Segurei-o pela ponta enquanto um colega, Barbosa, manejava o facão. Num instante que mudou minha vida, a ponta do facão, atingiu me o olho.

Caí na lama. Levantei-me logo em seguida. O que me revelou a gravidade do ocorrido não foi a dor, curiosamente inexistente naquele momento, mas a expressão de horror estampada no rosto dos outros meninos.

Voltamos à escola. Professoras e funcionários ficaram consternados. Fui levado ao hospital, internado e submetido a uma cirurgia sob anestesia geral. O olho não pôde ser salvo.

Depois da cicatrização, fui levado à Solótica, onde recebi uma prótese. Fizeram-na um pouco maior, para que acompanhasse meu crescimento. Na adolescência, contudo, a prótese tornou-se motivo de constrangimento. Deixava o cabelo crescer para escondê-la. Usei óculos escuros por muitos anos, inclusive à noite. Inventava histórias para explicar seu uso, dizendo tratar-se de lentes especiais que me permitiam enxergar melhor.

O mais curioso é que jamais culpei meu colega. Desde o primeiro instante relatei que tudo não passara de um acidente.

Anos depois, já adulto,deitado, pensativo e  inconformado com a perda e constrangimentos , pedi a Deus que me devolvesse o olho. E, como prova de fé, dirigi-me a um córrego de águas escuras e poluídas a noite, retirei a prótese e no breu, na escuridão da noite, atirei-a ao remanso.

Voltei para casa acreditando que algo extraordinário pudesse acontecer.

Na manhã seguinte, encontrei apenas a realidade: a cavidade vazia, permanecera.

Retornei ao córrego. Entrei na água e tateando o fundo barroso com as mãos, por indeterminado tempo. Procurava sem saber ao certo o quê. Até que meus dedos tocaram algo familiar.

Era a prótese.

Fechei-a na palma da mão e experimentei uma sensação indescritível de alívio e satisfação. Voltei para casa, higienizei-a cuidadosamente e a recoloquei.

Naquele momento terminou o trauma.

Acabaram os óculos escuros, os disfarces e os constrangimentos. O milagre que eu esperava não aconteceu da forma imaginada. Meu olho não voltou. Mas ganhei algo talvez mais importante: a aceitação.

Hoje, quando me recordo da Escola Classe Júlia Kubitschek, não me vêm à mente apenas os acontecimentos, mas sobretudo as pessoas.

Dona Alcione, dona Mariel, professora Elizabete, Marta, dona Regina, dona Mireta, dona Conceição e tantas outras figuras que ajudaram a compor aquele universo permanecem vivas em minha memória, envolvidas pelo afeto e pela saudade.

O colégio, seus arredores, as brincadeiras, as alegrias e até mesmo as dificuldades continuam existindo em algum lugar dentro de mim.

Passaram-se mais de sessenta anos.

Ainda assim, quando volto a essas lembranças, reencontro não apenas uma escola, mas uma parte importante da história de minha própria vida.

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