terça-feira, 1 de março de 2011

- Aspectos interessantes







"Obs O blog é um campo de trabalho e passa como rascunho por uma revisão constante onde alem de fluência e naturalidade o que se busca é o aprimoramento da expressão"

Aspectos interessantes

A leste de Planaltina, seguindo por trilheiros e estradinhas que rabiscam uma faixa de cerrado outrora frutífera, encontra-se a Serrinha. E no alto da Serrinha, os resquícios de uma amurada antiga, feita com pedras empilhadas umas sobre as outras. Disseram-me tratar-se de uma obra antiga, oriunda de trabalho escravo.

                                                                                                             Mamacadela    
                                                                                               meio ambiente cult






Araticum do cerrado - foto- Caliandra do cerrado




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Logo depois da Serrinha e da amurada de pedras, para o leste (se não me engano), o cerrado se estendia — e, dali por diante, disseram-me, pertencia aos militares. Por essa razão, evitávamos explorá-lo.

À direita, no sopé da Serrinha, localizava-se a fazenda que premiava nossos olhos com uma linda várzea, aleatoriamente pontilhada por buritis, arbustos e belas árvores que se aglomeravam às margens de um pequenino afluente. Esse fio d’água, dirigindo-se lentamente ao riacho Mestre d’Armas, daria pelo caminho com Planaltina — e, recepcionado com esgotos, a atravessaria.

Vale do Amanhecer - comunidade religiosa

                                                                                                              
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Do outro lado do regato, transpondo uma colina — ou elevado — hoje existe um bairro.

(Obs.: Quando voltava, em noites de pescaria, eu gostava de, do alto do elevado, observar a cidade com suas luzes. E, sobre as janelinhas iluminadas, tecia conjecturas... Palco de quê seriam... naquele momento? Aleatoriamente, numa e noutra eu focava... O que rolaria? E os personagens? Como seriam? kkkkkk “leseira pura”...)

Ficava por ali a cachoeirinha do Pipiripau — local de banho brrrrrr, bastante frequentado. Logo abaixo, havia um frigorífico. E, nos fundos dele, após uma pontinha rústica e um pasto, vinha um cerrado que se avolumava, apresentando uma ocorrência fora do comum de araticuns (gostávamos dali!).

Logo abaixo, o córrego fazia uma curva, quase 180 graus — era um dos nossos locais preferidos de pesca.

Na sequência vinham o Vale do Amanhecer, o Morro do Catingueiro (ou da Capelinha) e, depois, o Pântano.

A Pedra Fundamental de Brasilia - morro do centenário
                                                                                                                blogspot.com


Como a sonolenta serpente que escancara a boca envolvendo a presa, o riacho Mestre de Armas se espalha neste ponto e fagocita toda a mata — é o Pantano.
Ali, com água a dar pela cintura, caminhávamos através da floresta alagada até uma árvore tombada e, empoleirados sobre o tronco, demorávamos a pescar...
Dali, por vezes, incursionávamos até os fundos do Colégio Agrícola, onde furtávamos cana e tomates...                                                                w0sd.com

MarquinhosBsB
Morro da Capelinha

Imagine, caro leitor — “caso algum apareça” (kkkkk) — que, a partir do Morro da Capelinha, a paisagem que se espraiava foi considerada pela comissão Cruls como uma das mais belas já vistas por eles (hoje, infelizmente, desfigurada). Também, no célebre relatório, constam referências à piscosidade da região, fato que pude comprovar.
Ao norte de Planaltina, depois de uma faixa esplêndida de cerrado, rodovia, baixada e córrego, encontra-se o Monteiro, outro dos nossos pomares naturais; e, depois de longa — longuíssima — caminhada, a Lagoa de Bonsucesso e o Rio Paranã.
I
bacopari Foto Ana Rosa


                                                         
                                                                                                            Pitanga  blogspot.com




Abaixo, antes da ponte, o Furnal (“córrego Fumal”) faz uma curva, e o local é ponto de banhistas, além de ficar na rota para a Lagoa Bonita.
A nordeste, na altura do posto fiscal, à esquerda da rodovia, numa vicinal “sem asfalto” (rota de São Gabriel), depois de uma longa e belíssima caminhada — com direito a gabirobas, muricís e mamacadelas, esporadicamente colhidos à beira da estrada —, enveredando por um desvio à esquerda, chega-se à Lagoa Feia de Formosa, que, por sinal, é belíssima.

Lagoa "feia" de Formosa                                                                        DeviantArt

Agora venha cá, caro leitor, se um dia eu tiver algum, aproximemo-nos de Planaltina e, dentre outras coisas, vou te falar dos dois córregos e também da zona de Planaltina, o bordel. Volta e meia estávamos lá. Ali aprendi a conhecer e a respeitar as mulheres, independentemente do que façam ou deixem de fazer. Recolham-se por convicções em um convento ou atuem por necessidades em um bordel, toda mulher merece respeito e consideração. Seja dedicando-se ao lar ou nas diversas áreas desta sociedade desigual que, para alguns, concentra privilégios e, para outros, democratiza carências, nesse nicho — a zona e as mulheres neste contexto servindo — são como válvulas de escape e produto de tudo isso...
As virtudes, defeitos, fraudes, honestidade, descrença e fé encontram-se em toda parte.

Imagine o cliente, se é desses que por vagabundas e derivativos as tomam. Que o dinheiro com que lhes paga, quando pagam, em algum bairro da cidade, num canto qualquer, pode estar financiando no seio de uma família considerada normal, “um lar normal”, para um ou mais filhos destes derivados de situações de abandono ou negativas de paternidade.

Estávamos sempre por ali, e o Batista então, nem se fala... este amigo de todas as horas... compartilhamos, além da amizade verdadeira, momentos belíssimos e inesquecíveis que deixaram saudade...
Visitei-o muitos anos depois... ele deixara o vício e, com a esposa, tornaram-se evangélicos. Vivem felizes com os filhos que tiveram e com uma das filhas de outro relacionamento do meu amigo... falou-me com evidente orgulho dos filhos; alguns são músicos e atuam na igreja... levou-me para conhecer seu xodó, uma canoa improvisada de um teto de kombi, e me convidou para muitas pescarias...

Obs.: Que surpresa maravilhosa recebi ontem, dia 11 de maio de 2012, a visita do meu amigo Batista. Chegou aqui de surpresa com a esposa, uma filha e uma neta, e com outra surpreendente e belíssima surpresa: o fato de que um de seus filhos, o Pedro Herique, esteja no programa Astros do SBT e arrebentando...
Posto aqui o vídeo deste garoto simples que brota de um rescaldo difícil e muito sofrido, fato este que, com certeza, embasa a expressão do sentimento deste talento genuíno... Portanto, é com evidente orgulho e emoção que posto aqui o vídeo deste garoto puro, oriundo do povo desta gente acolhedora e simples que permeia nossa pátria...


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Memórias de Planaltina - Vila Buritis

Remoção da Velha Cap para Planaltina

Em meio à algaravia de tábuas, pertences e vizinhos, e de posse do que restara do barraco da Rua dos Correios, na Velha Cap, nos vimos, enfim, despejados no pleno cerrado dos buritis, em Planaltina-DF. Isso depois de sermos parados numa barreira e, sem exceção, vacinados.

O tio não perdeu tempo: de enxada em punho, começou logo a limpar o lote. Eu, por minha vez, pus-me a perambular, fazendo contato com os vizinhos e explorando a região.

Depois de reencontrar alguns amigos e conhecidos, arrisquei-me pelo mato e acabei dando com um verdadeiro pomar. Sim — o cerrado de Planaltina era um pomar natural...


Araticum do cerrado 
- conhecendoacaatinga.blogspot.com




Eu nunca tinha visto algo assim: araticuns por toda parte davam a impressão de um Natal fora de época, alternando domínios com cagaiteiras e pequizeiros. Isso sem falar do barú, do figo e do murici. E alheios a essa disputa — ou sem dar a mínima — pontilhavam por ali cajus, bacoparis, mangabas, curriolas, jatobás, pitangas, araçás, gabirobas e mamacadelas — logo promovidas a nosso chiclete, kkkkk, com leite e tudo.

Errava eu pras bandas da Sucupira (vila decadente e esparsa, numa das pontas de Planaltina) quando dei com o João Batista — “Batista” — que, assim como eu, perambulava... Caminhamos juntos, trocando impressões, e na volta ele me conduziu até o barraco onde morava, no Conjunto F da Quadra 3, que consistia de uma só peça: um pequeno cômodo de madeira, posteriormente aumentado.

No interior do cômodo, comprimiam-se duas camas, um fogão e uma base improvisada atulhada de objetos de uso pessoal e quinquilharias. Numa das camas, esparramado, encontrava-se o Fernando, que viria a ser um amigo inseparável. Agora, naquele cenário já espremido, adicione-se mais dois meninos — o Daniel e o Elias, os "tats" — e Dona Maria, uma senhora devotada ao lar e dedicada aos filhos. Verdadeira heroína. Sozinha, desdobrava-se lavando e passando roupas pra alimentá-los, sempre com o fantasma da fome a rondar... (Quando ouço uma música que diz, na letra, “mãe preta do cerrado”, é a imagem dela que me vem à mente...)

Alegre, expansiva, brincalhona e amiga. (Quanta saudade... se foi e eu nem fui ao enterro.)

Sempre que eu podia, furtava das latas sempre cheias que o boníssimo e previdente tio Miguel mantinha em casa, e os socorria às escondidas. E no mais, complementávamos com frutas que furtávamos de quintais e chácaras, ou colhíamos do cerrado — sem falar dos peixes que alegremente pescávamos.

Noutro conjunto da quadra, morava a Lourdes (irmã do Fernando), com o filho Samuel — dela com o Abrão (separados), um índio Xerente e capitão de aldeia na região do Araguaia — e também Mãe Neném, centenária, mãe de Dona Maria, com seu filho Zé Paulo e a prima Lira, também idosa, num puxado colado ao barraco da Lourdes.

O Zé Paulo, segundo diziam, fora presidente de um sindicato (se não me falha a memória, de motoristas) e, durante o governo militar, sob acusação de atos subversivos, foi destituído e preso. Disseram-me que sofrera horrores. Depois foi solto, sem direito a nada. Acredito que nem ao lote — que não tinha. Junto da mãe centenária e da prima Lira, foi abrigado numa nesga de terreno, em estreitos cômodos sob a proteção da Lourdes. Anônimo, excluído e esquecido — apesar disso, gozava do respeito e da veneração da família. Às vezes saía com a gente pra pescar. Comunicativo, se expressava muito bem. Eu gostava de ouvi-lo — e nunca ouvi dele uma palavra sequer sobre política ou ideologia.

Em datas de aniversário de Mãe Neném, ele conseguia reunir, no barraco da Lourdes, alguns dos antigos amigos. Os carros ficavam enfileirados e estacionados, em contraste com tudo. Lembro-me que, numa dessas ocasiões, ele trouxe o jornal e, como era de costume, a certa altura pediu a palavra e, com a eloquência que tinha, fez emocionado discurso em homenagem (se não me falha a memória) a “Dona Josefa”, sua mãe — e finalizou dirigindo-se, através do jornal, à sociedade e ao governo, com o pedido de um lote para sua mãe... O que não conseguiu.

Antes que “desta” se fosse... Nos últimos tempos, ele, animado com a promulgação da anistia, lutava por se aposentar... Não sei se conseguiu, ou se houve tempo para usufruir.

Conclusão: os militares — e o país — ficaram devendo essa.

Um dia, o capitão Abrão apareceu para ver o Samuel. Fui conhecê-lo junto com os meninos. Chamou-nos pra uma volta e, dentro de um boteco, abriu a mochila, presenteando cada um com miçangas. Depois, como na minha vez não achou mais nada, pegou uma cordinha trançada de embiras e, dando algumas voltas, amarrou no meu pulso. Perguntou meu nome. Depois disse:
— Saulo é de confiança.
Perguntei:
— Por quê?
Apontando pro meu pulso, respondeu:
— Não sobrou e nem faltou... ficou ali. kkkkkk

Ficou mesmo. Feito um troféu... até fragmentar-se.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Vila Operária Goiânia - A lagoinha



A Lagoinha

...Como que em engaste natural, incrustada em meia baixada, recoberta por mato ralo e arbustos de baixo porte: a Lagoinha — assim denominada pela molecada — era um espelho de águas mornas, límpidas e, apesar do tamanho (calculo entre 800 e 1.200 metros quadrados de área), era linda, mágica... inigualável.

Localizava-se em algum ponto da região que hoje compreende a Vila Isaura, o Abaja e o Jardim Xavier. Foi aterrada.
Naquele tempo, era ponto de encontro — piscina natural da molecada dos arredores.

Demandávamos suas margens pelo lado não brejado, seguindo por trilheiros... e lá tirávamos nossas roupas, que consistiam num calçãozinho e camisa, e do modo como viemos ao mundo, mergulhávamos.

O fundo era arenoso e firme na maior parte da lagoa. Entretanto, volta e meia, por causa da demanda, a gente errava e acabava do lado brejado, atolando — e quando saíamos, era um Deus nos acuda:
"Xime xuga! Sangue-sugas!" (O povo fala "xime xuga").

Uma porção delas nas nossas pernas, bombeando... kkkkkkkk
"Quem tem um cigarro aí? Uma guimba, pelo amor de Deus!"
E logo a guimba salvadora aparecia. Bastava encostar — e elas caíam.
Acho que sou assim tão sadio por causa dessas sangrias (eram receitadas por médicos, no passado).

De certa feita, passamos um mau pedaço — eu e o Tomazetti...
Retaliação? Vá lá saber. O certo é que provamos do próprio veneno.

Saímos do banho detonando, ora uma, ora outra mutuca (espécie de vespa enorme), que em matéria de sangria concorre com o "xime xuga". Isso sem falar dos mosquitos e dos carrapatos...

Nos dirigimos então à moitinha onde havíamos escondido nossas roupas. Rebuscamos tudo. Nada. Destrinchamos os arredores, reviramos cada moita... nada!
Seria engraçado, não fosse trágico.

Esconderam nossas roupas, os safados...

E ali, os dois em pêlo — eu e o Tomazetti... o que fazer?
Providenciais folhas de mamoneira vieram a calhar.

Uma caminhada, imagine só, até as imediações do primeiro barraco da redondeza. Por detrás de uns arbustos, batemos palmas... e ô sorte!
Apareceu uma mulher, ufa... caridosa. Emprestou-nos uns calçõezinhos velhos — dos filhos dela, penso eu. Dias depois os devolvi, agradecendo.

Conclusão:
Com o aterramento, o setor e a comunidade perderam uma área verde com um espelho d’água maravilhoso...

sábado, 22 de janeiro de 2011

Vila Operária Goiânia

Preâmbulo

To: saulopescador@hotmail.com
Subject: Feliz 2011
Date: Wed, 29 Dec. 2010 20:13:26 +0300






Obs: suprimi o email do meu amigo Tomazzeti
                                                                                                    
      Saulo, meu irmão de paciência e de sonhos,

não tem uma só ponte que eu atravesse com águas limpas e sombra em volta que eu não me lembre de você.
Parece que foi ontem... mas já se vão quase cinquenta anos.
Ainda assim, você continua vivo nas nossas memórias.

Ah, como era bom ser criança na nossa época!
E ter sido seu amigo de infância — isso foi o maior tesouro que alguém podia ter.
E eu tive esse privilégio.

Que Deus continue iluminando os nossos dias.
Hoje, eu daria tudo pra voltar lá na Gameleira
e pescar, pelo menos, um lambari de rabo vermelho na sua companhia.

Quanta saudade.

Um abraço apertado, meu amigo.                                                                                          
                                                                                            
                                                                                                            Blogspot.com



Tomazetti, meu amigo, a paciência é uma virtude que devemos cultivar com persistência e fé. E dos sonhos, jamais devemos desistir — por mais que se distanciem ou se metamorfoseiem em roupagens diferentes.

O poço da Gameleira, a Lagoinha, o trecho em curva do Anicuns até a confluência com o Cascavel... As águas límpidas, meu amigo, continuam a correr. Os lambaris de rabo vermelho, no burburinho... A bolsa de lona sobre o barranco do remanso... A latinha com minhocas e o movimento brusco, enviesado, de um caniço de bambu... A presa prateada a voltear e revolver-se, encaminhando-se na ponta da linha para se debater nas mãos de um garoto — sob o olhar atento do outro...

Sabe, meu amigo, tudo isso vive. E vai persistir em nossas memórias.

Feliz Ano Novo, meu amigo. E que Deus ilumine sempre os nossos caminhos.


Trecho 2 – Memória de 1963:

...1963...
Ali estávamos nós, com papai. Finalmente, na casa da Vila Operária (Goiânia). Papai a trocara por nossa linda casa de Anhanguera, GO, onde nasci.

Cumpre dizer que, de lá, não viemos diretamente para cá. Moramos em Cumari, depois em Catalão, e em seguida em Palmelo — de onde, por fim, viemos de mudança.

Susto, decepção, desencanto, insegurança... Papai, penso eu, diante do quadro, sentiu uma mescla de tudo isso.
Nós, os meninos — kkkkkkkkk — pelo contrário, nos divertimos à beça explorando o quintal aberto, entulhado, coberto de mato e alastrado por aboboreiras que cresciam espontaneamente.

A casa... como chamar de casa aquele barraco de quatro cômodos em formato de L, maltratado, sem reboco, carcomido pelo tempo? Papai a trocara por nossa bela e imponente casa de Anhanguera. Trocou no pau, na confiança, sem ver — movido pela esperança na nova localização e, principalmente, pela promessa de uma educação melhor para nós.





Papai, a princípio, pensou em nos internar na FAMA — o internato mantido pela maçonaria (papai era maçom). Depois, resolveu nos deixar por uns dias na casa do Sr. Barbosa, lá na Vila Coimbra (Setor Coimbra), um de seus amigos dos tempos de Anhanguera, antigo funcionário dos Correios e também maçom. Ficamos com essa família maravilhosa por pouco tempo, mas o suficiente para deixar saudades.

Papai ajeitou as coisas como pôde e montou seu consultório (papai era dentista) na casa do Sr. Moisés, na Rua 510 — outro maçom e também amigo dos tempos de Anhanguera.

A Vila Operária (Setor Centro-Oeste), onde fomos morar, era um enclave espremido entre Campinas (a Campininha), o Setor dos Funcionários, a Fama e o Jardim Xavier. Segundo os mais antigos — porque a história oficial de Goiânia, que vergonha, só fala de eventos e de políticos — aquilo tudo começou como um acampamento de trabalhadores, uma "invasão", posteriormente legalizada.

Papai nos matriculou no Colégio Estadual Damiana da Cunha — nome dado em homenagem a uma índia importante e... desconhecida (pesquisei, e aposto que nem a diretora atual sabe disso! kkkkkk). “Lá no ovinho” — chamamos assim, eu e minha filha, por causa do espaço miííídio kkkkkk... Na hora do recreio, o “fazer a gata parir” era inevitável (brincadeira nossa, de criança mesmo).

Foi no Damiana que conheci o Tomazetti — um garoto meio marrento, descendente de italianos, que morava na Rua do Comércio com a família. O pai, Sr. Ângelo, mantinha uma marcenaria ao lado da casa e, junto com os filhos mais velhos, se dedicava a recuperar — ou melhor, praticamente reconstruir — carrocerias de caminhão. Era comum vê-las erguidas sobre engradados em frente à casa.

Estudávamos na mesma sala. Um dia, ele nos surpreendeu — e como! A professora pediu que algum de nós fosse à frente cantar... qualquer coisa. Pegou todo mundo no contra pé. Um olhava pro outro dizendo: “Vai você!”... “Eeeeu? Nãão!”

E, de repente, o Tomazetti levanta, estufa o peito e sapeca:
— Katariii... Katari...
Uma música italiana! Que coragem... Achei o máximo.
Daí pra frente, nos tornamos inseparáveis.

..Tínhamos em comum o gosto por pescarias e pela vadiagem nas beiras de córregos. Tornamo-nos frequentadores assíduos de uma faixa de terra logo acima do encontro do Córrego Cascavel com o Anicuns — ali onde hoje fica a Vila São Paulo. Naquela época, era uma bifurcação, um verdadeiro santuário.

O Cascavel, por sua vez, já dava sinais de poluição por esgotos residenciais. Apresentava uma concentração exagerada de lambaris — acredito que por causa dos detritos (ainda não letais) que, de certo modo, serviam de alimentação pra eles.
kkkkkkk (depois a gente ainda comia os bichinhos... eca!)

Já o Anicuns, em boas condições por conta do seu curso mais limpo, era o nosso preferido.
Sinuoso, cheio de remansos e corredeiras, com a mata ciliar ainda em perfeito estado... foi palco das nossas saudosas, infantis e maravilhosas pescarias.

Evando F Lopes

A tarefa de arrancar minhocas, claro, sobrava pra mim kkkkkkk. Eu, como o mais novo, aff...

Mas havia uma atenuante: era com uma das facas do Tomazetti. Ele tinha duas — daquelas com cabo de osso e costa serrilhada. E uma bolsa de lona que me encantava — tanto a bolsa quanto o conteúdo.

Lá dentro: carretéis de linha de bitolas variadas, chumbadas e anzóis acondicionados num tubinho desses tipo Cebion... e as facas — de cabo de osso!

Além disso, tinha ainda o cinto com a flor-de-lis na fivela, um cantil...
E eu?
Eu não tinha nada. Absolutamente nada.

Foi o Tomazette que me ensinou a tirar o mandi chorão do anzol sem quebrar os ferrões.
Era assim: a gente colocava um dedo por baixo de um dos ferrões e o outro dedo por cima do outro. Desse jeito, imobilizava o bicho direitinho.

Foi ele também que me ensinou o remédio pras espetaduras — se é que dá pra chamar de remédio.

Aconteceu assim: pescávamos depois de uma chuva, em água barrenta. Era um chorão atrás do outro. Tirávamos do anzol sem quebrar os ferrões e íamos jogando eles, ainda saltitantes, numa beirada de barranco, ali atrás da gente.

Eu, descalço, claro. Não deu outra: um passo pra trás e... pronto.
Fiquei ali, feito um saci doído, com um chorão pregado na sola do pé. Uiiii...

O Tomazette, sem pensar duas vezes, receitou logo a cura. E como eu não tava em condições de aplicar sozinho, ele mesmo ministrou: mijou no meu pé.

Adotei o tratamento. Usei uma infinidade de vezes depois — repassando, a “fórmula”.





(continua)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Dia de sorte

Saulo

 Evandro F Lopes

     www.visitarcostaric

 Aguas Emendadas-Educação Ambiental...
Ô Lagoão! Lagoa bonita... No coração do Brasil
A brisa que balouça o junco e  tuas águas eriça
Extrapola os circuitos e  a minha alma  agita...





blogspot.com



...


                              aguasemendadas
Puxa me parece que nesta foto onde se vêem dois buritis, na parte de baixo a direita, sombreadas
aparecem duas trairas uma maior e outra menor isto se não me engano 
EBC
                                                                                                                                                                                                                                                                                                
                           
Graças a Deus a lagoa bonita é hoje parte da Reserva Biológica de Águas emendadas e consequentemente
protegida por leis ambientais e vigiada 24h por dia por policiais da CIA de Polícia Ambiental do DF. Portanto tanto a pesca como passeios e visitas estão proibidas.

                                                                                                                 

Era uma vez...
Como das tantas outras em que, a certa altura do trilheiro que percorríamos, a Lagoa Bonita (nos arredores de Planaltina-DF) se descortinava — filtrada por carvoeiros, pequizeiros e outras árvores do cerrado — e, à medida que nos aproximávamos, embevecendo nossos olhos, ela crescia...

Caminhávamos pela orla até certo ponto e então adentrávamos pelo cebolão, aqui e acolá atolando, com a água subindo pelos joelhos, até o local em que, por causa de vândalos, afundávamos a canoa. Daí a resgatávamos, a esvaziávamos, depois colocávamos dentro os nossos apetrechos e subíamos.

Nesse dia, tomamos o rumo dos buritis, no vazante da lagoa. Eu, o João “Batista”, o “Nobré” Josué e seu irmão, o “Pelicano” — o “Pelica” Levi (já falecido)...

Por diversas vezes paramos, sempre fincando o varejão (aquele varão de madeira que usávamos para amarrar a canoa). Sempre na orla de clareiras (muitas, em meio ao cebolão que recobria praticamente toda a lagoa)... Inicialmente, pescamos piabas, que usávamos como isca — isto antes que se introduzissem tucunarés na lagoa, acabando com elas...

As águas eram transparentes, límpidas, e o fundo recoberto por espessa camada de lodo, aqui e acolá fragmentado... Quando havia calmaria, dava para observar as traíras surgindo do lodo, atraídas pela isca em movimento. Abocanhavam-na e se deslocavam com a linha — era o momento de fisgar.

O centro das clareiras era livre do lodo. Encontrávamos, quase sempre nesses lugares, peixes intrigantes — geralmente dois, pairando sobre locas no fundo. Eram enormes, arredondados, tinham na cauda uma pinta negra, assemelhando-se a tilápias, mas não eram tucunarés. Atiçávamo-los com as iscas em movimento. Eles as volteavam, ensaiando botes, mas nunca abocanhavam... Perdíamos um bom tempo com eles, sempre.

Saciados, com um mexido compactado em latas de óleo vazias, piabas cortadas e preparadas como isca. Tempo bom. Leve brisa soprando... Deslocamos, agora rumo ao montante, parando aqui e acolá, pescando... O sol descambava quando decidimos pelo caminho da volta, sempre fisgando traíras e pirambebas.

Trazíamos conosco caniços, estilingues e embornal. Eu, um caniço médio de bambu, improvisado, e outro menor, de pindaíba, também improvisado, que atravessava a canoa — o de espera.

Noite alta. Na orla de uma clareira, já próximos da margem, quase saindo... Última paradinha. Fincamos o varejão, amarramos a canoa e depois jogamos as linhas... Pingamos, negaceamos, batemos, chamamos... (Existe um ritual na pesca de traíras).

Fiz com o caniço menor alguns arremessos, atravessando-o novamente sobre a canoa de espera, e voltando ao caniço principal. Senti o pesar por duas vezes, depois um leve estímulo... correr. Algumas traíras foram fisgadas, e meus companheiros, outras tantas. Voltei a atenção para o caniço menor, repeti o ritual — atravessando-o novamente de espera e retornando ao principal — quando o caniço menor literalmente saltou, submergiu e reapareceu mais à frente, em meio à clareira...

Hipnotizados pela cena, em frenesi, arrebentamos os cordões que nos prendiam com a canoa no varejão e partimos no encalço. Alguns com as mãos servindo de remo... O caniço afundava e logo reaparecia mais à frente, sempre na direção do cebolão, e a gente na batida... Quando finalmente alcançamos, eu o apanhei, segurando fortemente... Senti os puxavancos, a ponta do caniço emborcava perigosamente, afundando...

Afrouxa, Saulo, a linha!
Pooorraaa... o cebolão!
Cuidado!

Não pude evitar. Se enroscara... Linha esticada, engarranchada, pesada, e eu aflito segurando.

Aproximamo-nos devagarinho e, com a mão, segurei a linha, fazendo-a oscilar até que se desprendeu. E depois de breve luta, o peixe, cansado, se entregou. Arrastei-o cuidadosamente e, com o devido jeito, içei para bordo... Escapuliu dentro da canoa.

Ô loléia... um trairão!

Abafamos-no, sem que com suas mandíbulas nos importássemos... Era enorme, escorregadio, lindo. Um trairão! Não dava para abarcar com as mãos. Todos queriam tocá-lo, medir, sopezar, admirá-lo...

Noite alta, clara... Depois, em meio ao cebolão, à margem, afundamos a canoa novamente e pegamos o trilheiro de volta pra casa. Caniços na mão, embornais pesando, satisfeitos, orgulhosos, tagarelando sobre a estrela do dia — a estrela do dia, como não poderia deixar de ser, e que, do embornal, a pedidos, volta e meia saía...

E quando saía, propostas choviam:

Dou meu caniço!
O "lingo"! (estilingue)
Os peixes!
Nããão... Neeem... nada. Quero não.

E naquele rústico embornal, feito com pedaços de lona, à mão, emborcada e prensada, prensando e pesando no ombro e na autoestima... fascinava, eclipsava coadjuvantes:
um orgulho de menino.



       www.ibico aradetod
energuaviare.com

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Condução

Cenas do cotidiano

Elaborando
Cenário
.
olivre.com.br

Ponto de ônibus

... Hora um, hora outro, em pé, sentados,ou alentando se, percrustra o horizonte, na esperança do Buzú, um vislumbre — desse, perene ingrediente das suas demandas e  desconfortos. E quando ele desponta, elas se agitam e vão se espremendo: “Uiiiii, meu pé!”, em busca de um lugarzinho estratégico. Ele chega, repleto, vai encostando e abrindo as portas, que pessoas disputam como se fossem do céu.

Um por um, a catraca recepciona o passe livre para quem o tem, ou o antecipadamente adquirido, Sit pass — esse é o salvo-conduto. Quem não pôde adquirir nessas condições fica no canto, retido, atrapalhado e atrapalhando, ali com o dinheiro na mão e esperançoso de que alguém disponibilize uma unidade.

... Assentos ocupados vão se comprimindo pelo corredor, e — olha a gominha, três por um real... Ambulantes entram em cena, o áudio fica interessante... “Melzinho com própolis, bom pra tosse, bronquite e rouquidão, dois real a caixinha, três caixinhas por cinco real...” “Moço, desencosta...” (Voz de mulher) “Olha a massinha colorida” (com uma nas mãos amassando) — “Desenvolve a criatividade do seu filho e toma as mais diversas formas. Todas têm olhinhos que piscam...” Faz um bonequinho e o exibe — o curioso é que fica a cara dele.

Outro solicita atenção, levanta a camisa, exibindo um recipiente colado ao corpo contendo suas vísceras (abre-se uma clareira, como não sei) e faz um apelo carregado de religiosidade que culmina com o oferecimento de canetas por um real... Pessoas compram, e eu também, compungido.

“Moço, desencosta” (voz de mulher) “Apupos e trocadilhos... olha a gominha...” “Freggeeeels” (voz) — “Moço, dá o lugar pra este senhor...” Um jovem levanta, relutante, e o idoso assenta... Menino passa distribuindo papeizinhos amarrotados e depois volta recolhendo, alguns com moedas...

Na roleta, mulher passa filho deficiente e, quando chega sua vez, o cartão trava. Ela fala com o motorista, e este se mostra irredutível... começa um bate-boca. Ela esbraveja, chora... Alguém do outro lado ampara o menino desnorteado... outro libera a mulher com unidade do próprio uso... Impropérios ressoam — contra o motorista, a empresa, o governo...

“Barulho metálico” — é uma sacola que cai... pessoas se afastam, salpicadas... e no piso, em meio ao arroz, feijão e tomate esparramados, destaca-se um ovo estrelado... rapidamente um jovem se abaixa e recolhe. Espocam chacotas e condolências...

O terminal, ufaaa...finalmente...

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O ônibus circula, adentra o terminal e, na vaga correspondente, abre suas portas... As pessoas, meio que esbaforidas, vão se espremendo e como que espirradas, saindo...

— Moça a sua bolsa tá aberta... 

— Meu Deus, minha carteira... acontece, por vezes...

domingo, 11 de julho de 2010

Retalho de memórias... Velha cap DF capitulo 6











                                                            As lojinhas, Candangolândia







CAPÍTULO 6: Retratos de um Tempo Doce e a Epopeia Esquecida da Alma Candanga
Tempo doce... Que saudades! Quando fecho os olhos, revejo-me nitidamente: um menino pobre, mas transbordando de vida, perambulando livre pelas ruas da Velha Cap. Minhas pegadas ficaram na Candangolândia, na Vila do IAPI, na Vila Tenório, na Cidade Livre, na L2, nos acampamentos operários, nas margens do Córrego do Jardim e na beira do Lago Paranoá. Uma hora eu estava vadiando, em outra estava engraxando sapatos nos postos de gasolina e alojamentos. Ora trocava gibis na porta do cinema, ora estudava na tão querida Escola Classe Júlia Kubitschek... E, claro, a maior parte do tempo eu passava jogando bola. [1, 2]
Lamento profundamente que a história oficial de Brasília seja tão "enriquecida" de eventos oficiais e figuras políticas, mas permaneça completamente vazia daqueles que realmente a construíram com o próprio suor: o povo. Lamento o descaso com o colégio Júlia Kubitschek e a sua posterior destruição. Lamento o sumiço dos alojamentos que abrigavam tantas vidas. Mas fazer o quê? [1]
Portanto, caro amigo leitor... Se por acaso você der passagens por aqui e disto porventura ler; se você tiver, de alguma maneira, gosto por escrever, pintar ou fotografar, registre algo. Deixe o registro de si, do seu recanto, das suas impressões mais sinceras. Escreva uma crônica, um poema, uma narrativa... O que for. Que seja uma única linha, ou que aos olhos dos outros soe pedante, uma quixotesca algaravia repleta de frases ininteligíveis e passagens abruptas. Pouco importa! Garanto a você que o seu registro sairá muito melhor e mais verdadeiro do que o solene descaso praticado pelos administradores e historiadores oficiais da capital.
A alma candanga é rústica como o concreto armado. Na epopeia de um sonho, ela foi modelada e suavizada no dia a dia, como se fluísse diretamente da prancheta mágica do arquiteto Oscar Niemeyer. Essa gente, sim, merecia uma sorte muito melhor da história. [1]
A Última Viagem do Tio Miguel
Para finalizar esta abordagem, eu jamais poderia deixar de registrar a passagem do meu boníssimo tio Miguel. Ele foi um verdadeiro pioneiro. Funcionário dedicado da carpintaria do DAE, ele viveu única e exclusivamente para ajudar o próximo. Foi um grande tio para todos nós — ora ajudava um, ora amparava outro. Infelizmente, eu não pude estar presente no seu sepultamento, pois não fui avisado a tempo.
Tempos depois, o meu primo Altamir, o "Tamiro", contou-me como tudo aconteceu naquele dia triste. Durante o sepultamento, ao ouvir os relatos sobre a vida do meu tio e sabendo que ele era um pioneiro da construção da capital, o coveiro parou e perguntou à família se, por acaso, ele não havia recebido uma carta de agradecimento assinada pelo próprio punho de Juscelino Kubitschek.
A resposta da família foi afirmativa: sim, ele guardava essa carta.
O coveiro ponderou imediatamente que, por conta daquela honraria, o tio Miguel não poderia ser sepultado em uma cova comum. Após entrar em contato com a administração do cemitério, ele mesmo conduziu o cortejo até um recanto especial, um espaço estritamente destinado aos pioneiros por ordem expressa do próprio ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Segundo o relato do meu primo, meu tio foi acolhido na área da própria e venerada sepultura histórica dos pioneiros. [1]
O homem simples, que devotara toda a sua juventude, o seu trabalho duro e a sua fé cega na construção de Brasília, finalmente recebia o seu tributo. Ele não fora esquecido.



segunda-feira, 24 de maio de 2010

Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 5



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...Primeira igreja de Brasília repare no estado já em abandono, tinha um coreto do lado, era freqüentada e amada pelo povo...
wikimapia


CAPÍTULO 5: O Suor da Infância, as Fronteiras Invisíveis e os "Rocks" da Candanga
Além de jogar bola e brincar, eu trabalhava — e como! Enchia tambores com água, engraxava sapatos nos postos de gasolina da BR e em vários alojamentos da Velha Cap e da Candangolândia. Também coletava sucata pelos acampamentos e vendia jornais na Asa Sul. No tempo que sobrava, eu pescava. Às vezes ia acompanhado do meu irmão e do Tamiro (Altamir); outras vezes, com o Augustinho, o nosso "Agustín".
Nós tracejávamos a mata do Jardim, desbravávamos os fundos do Núcleo Bandeirante e a ponta do Lago Paranoá na Asa Sul. Volta e meia topávamos de frente com os guardas do Zoológico — e aí era aquela correria desenfreada pela mata! "Cará" e tilápia tinham a dar com pau naquelas águas.
Havia duas entradas principais de acesso à Velha Cap e à Candangolândia através da rodovia dos postos. A transversal de cima adentrava entre o campo do Guará e o cerradinho, onde ficava o campinho de várzea em que jogávamos nossas peladas. A outra entrada, localizada mais abaixo, era asfaltada e passava bem à direita da rua em que moravam a professora Alcione, o colega de escola Zé Fernandes e onde também diziam ter residido o célebre engenheiro Bernardo Sayão. Um dos meus locais favoritos de folguedo na mata ficava um pouco abaixo dali, composto por pequenas lagoas formadas entre a vegetação. Na altura da pensão da dona Lourdes, também naquela baixada, encontravam-se o Juizado de Menores, alguns alojamentos operários e o temido presídio da "Rua do Sossego".
Fronteiras Invisíveis e Risadas de Sala de Aula
A impressão nítida que se tinha na época era de que os funcionários moradores da Velha Cap, no geral, pertenciam a escalões mais modestos em relação ao pessoal que habitava a Candangolândia. Por conta dessa sutil barreira social, a molecada dos dois lados pouco se misturava espontaneamente.
Eu, porém, quebrava essa regra e me dava muito bem com boa parte deles, especialmente com os garotos do time de futebol. Na sala de aula, por exemplo, o Vicente Batinga e eu éramos uma peça: não podíamos sequer olhar um para a cara do outro enquanto líamos a lição que logo caíamos na gargalhada, para desespero da professora.
Um dia, fui visitá-lo em sua casa. O barraco dele ficava bem nos fundos da Candangolândia, na beira do córrego. Aproveitei a visita e o ajudei em uma de suas ocasionais tarefas domésticas: buscar lenha em um cerradinho que ficava logo do outro lado da margem.
Também conhecia o Beto Veloso (irmão do Lúcio e do Gilsim) e o Zé Geraldo. Trombava ocasionalmente pelas ruas com o Nito e com o Dedé, seu irmão que infelizmente já é falecido. Também via com frequência o João Batista e o Fernando, seu irmão. Eles moravam na "Gurutuba", uma ruazinha com pouquíssimos barracos situada bem na beira da mata, colada ao Zoológico. Com o tempo, aqueles meninos tornaram-se meus grandes e inseparáveis amigos.
A Primeira Igreja e as Ruas de "Rock"
Na Candangolândia ficava a famosa igrejinha de madeira com seu coreto — a Paróquia São José Operário, reconhecida historicamente como a primeira igreja de Brasília. Ela era o coração da comunidade, frequentada e profundamente amada pelo povo trabalhador. Próximo a ela ficavam também a primeira delegacia da nova capital, diversos alojamentos da Novacap e a imponente "Rua dos Engenheiros", onde moravam os filhos metidos das chefias. [1, 2]
Havia também uma área comercial que todos chamávamos carinhosamente de "Rua das Lojinhas". As vias residenciais eram organizadas de forma técnica pela administração: Rua A1, A2, A3 e assim por diante. Porém, os garotos mais cheios de pose da Candangolândia decidiram rebatizá-las à moda da época, chamando as quadras de "Rock 1", "Rock 2" e "Rock 3". E não é que a mania pegou na boca de todo mundo?


Retalho de memórias...Velha Cap DF. capitulo 4



CAPÍTULO 4: O "Ipsilon" da Velha Cap – Personagens, Mitos e a Vida na Rua dos Correios
Quando a aula terminava, eu saía e enviesava por um trilheiro à direita até a primeira rua do aglomerado maior da Velha Cap. Passava defronte às casas do Canela e do Zé Galdino, desembocando em frente aos Correios, bem naquele terreno pelado onde jogávamos "bete" e apostávamos disputas de pião — daquelas em que o prêmio eram os próprios piões.
Na orla do largo ficava a venda do pai do Pide e do Totonho. De um lado, via-se o barraco do dentista. O filho dele, um rapazinho à época, acabou sendo vítima de uma brincadeira de extremo mau gosto que armei: o "pau de bosta". O pior de tudo é que ele estava acompanhado da namorada, bem no portão do Júlia Kubitschek, no turno da noite. Hoje, confesso, me arrependo.
A molecagem consistia no seguinte: pegávamos um pedaço de madeira e passávamos fezes na ponta. Simulávamos uma briga feia e logo uma plateia se aglomerava ao redor. O moleque desarmado desafiava o outro a largar o porrete e "sair na mão". O oponente relutava, fazia um teatro e, tomado de falsos brios, pedia para alguém da roda segurar o pau. Quando o infeliz aceitava, sequioso para ver o embate, nós saíamos correndo e debandávamos às gargalhadas. No fim das contas, os arbustos do largo é que pagavam o pato.
Os Meninos da Jovem Guarda e o Ringue de Telecatch
Adentrando a Rua dos Correios, passava-se à esquerda, defronte à casa do Lade, vindo logo após as casas do Preto (irmão do Onofre), do Tioca alfaiate (irmão do Aluízio), do Magela, do Cosme e do João. Depois vinham a Yenes com a mãe, e o Gabriel e o Santino, também com a mãe. Abaixo dessa bifurcação é que se desenvolvia o comércio.
Cito também, e com muita grata memória, a Lindaura e o Jerry, meus colegas de sala. O Jerry curtia tanto o cantor Jerry Adriani que mantinha o cabelo com um topete idêntico, penteando-o a todo momento. No geral, todos nós curtíamos a Jovem Guarda: Beatles, Roberto Carlos, Wilson Simonal, Ronnie Von, Leno e Lilian, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps, Jorge Ben...
No auge do programa de TV, eu e o colega Rogério "Cebiom" construímos um ringue de telecatch nos fundos da casa dele. Havia também o Tumais Tomaz, apelidado de "Castelinho" por causa do pescoço curto. Ele era amigo do meu irmão, integrante daquele mesmo grupo que o apelidou de "Grilo" — e o apelido pegou. Lembro-me ainda da Dona Amélia, uma senhora muito amiga do meu tio que morava na transversal de cima e nos tratava com imenso carinho.
O Coração Comercial e o "Para Pedro"
Abaixo do vértice da rua, o traçado urbano se abria feito a letra "Y" (um ipsilon), delimitado pelas transversais de baixo e de cima. Era ali que pulsava o grosso do comércio local. Olhando-se da quina do vértice, onde se localizava o açougue do Espanhol, via-se abaixo e à esquerda o bar e venda do Nery e, logo em seguida, a mercearia do Ceará — como tinha "Ceará" na Velha Cap! —, além da venda do seu Nem, pai do Juá. À direita, na sequência, ficavam o bar do Cardoso e a pensão do Nero, com uma portinha de quitandeira meio espremida entre os dois. Acima da bifurcação, à esquerda, ficava o bar do João Leite; à frente dele, a venda do seu Abílio e, aos fundos, o quintal e barraco do meu tio Miguel. Mais acima, na esquina, a barbearia do Joaquim.
Naquele trecho, as pessoas compravam, caçoavam, brincavam e bebiam — e muito. O álcool amiúde derivava em brigas memoráveis de rolarem no chão. Assisti a muitos quebra-paus homéricos entre o Jaime açougueiro e o Zé Pretinho. Era só se encontrarem que logo se pegavam, e eu nunca soube o real motivo daquela rixa.
Outro personagem marcante e dono de uma bicicleta cargueira adaptada e interessantíssima era o "Para Pedro", um vendedor de quebra-queixo e creme. A bicicleta trazia uma espécie de caratonha feita em naco de tronco de coqueiro, esculpida com óculos escuros, chapéu e um cigarro paramentado no canto da boca. Com um megafone improvisado, ele chegava se anunciando e cantando sempre: "Para Pedro... Pedro Para..." A molecada corria e o arrodeava. Enquanto vendia os doces, ele promovia gincanas.
Ganhei um bibelô em uma dessas brincadeiras — com uma leve fraude, infelizmente, da qual não me orgulho. O desafio do Para Pedro consistia em colocar um ovo no meio da rua e, de olhos vendados e com um porrete na mão, a pessoa precisava dar um giro de 180 graus e quebrá-lo, orientada pelos gritos da galera. Quando ele amarrou a venda em mim, apertei bem os olhos e franzi a testa várias vezes. Com esse movimento, consegui deslocar a venda um pouquinho para cima e visualizar o chão sob os meus pés. Não deu outra: quebrei o ovo de primeira.
Na transversal de baixo, não se pode esquecer da mercearia do Bulú e do bar do Antônio Gravatinha — quase um "inferninho" das coroas (kkkkkk). Na transversal de cima, ficavam a venda do pai do Pide e Totonho, o pai do Neri, e a venda do Zé, irmão do Lade e do Piau.
Da Política aos Mitos Populares: A Onça e a Lua
Alguns acontecimentos da época agitaram profundamente a Velha Cap e suas adjacências. Um deles foi a cassação de políticos em massa promovida pelo governo militar. Nas ruas, o que se via eram grupos de pessoas reunidas em torno de um exemplar de jornal. Ao contrário do que a história oficial às vezes faz pensar, frases como "bem-feito para estes corruptos" era o que mais se ouvia da boca do povo simples.
Outro fato marcante foi a fuga do "Gilberto". Que rebuliço! Adrenalina pura, medo e pavor tomavam conta de todos. "Cadê o Gilberto?", era a pergunta que não calava. Os jornais noticiavam que tinham visto pegadas dele na beira do Lago Paranoá. Dias depois, diziam que fora avistado na zona rural de Unaí, em Minas, e logo mais daria o ar de sua graça na Bahia e pelo Brasil afora... Parecia até o cantor Belchior no futuro (kkkkkk). Então, numa bela manhã, bem nos fundos do Zoológico, numa das muitas armadilhas espalhadas pela mata, a onça-pintada "Gilberto" — que havia escapulido por um descuido — apareceu capturada. Conclusão: o bicho nunca tinha saído das imediações do Zoo. Que mico para a imprensa!
E como esquecer daquele saltitante passeio em preto e branco do astronauta Neil Armstrong sobre o Mar da Tranquilidade, diante das retinas embasbacadas de todos nós através das poucas TVs da QE? A febre do espaço foi tanta que, não demorou muito, a polícia prendeu um homem que estava vendendo lotes na Lua! Ele tinha mapa impresso e tudo (kkkkkk) e, quando foi pego, já tinha conseguido passar quatro lotes para trás.
Finalmente, um acontecimento triste fechou aquela época: um terrível desastre com um ônibus da TURI, que fazia a linha Belo Horizonte–Brasília. O acidente causou enorme consternação na comunidade e deixou órfão o Magela, aquele bom garoto da Rua dos Correios. Eu, que nunca tinha visto um enterro coletivo na vida, guardei aquela imagem pesada e espero nunca mais precisar ver algo parecido.