A partir da célebre frase de Deng Xiao Ping: Não importa a cor do gato, importa que cace o rato.
Do Gato e dos Homens
Disseram que pouco importava a cor do gato,
desde que caçasse o rato.
E muitos tomaram isso como licença
para esquecer o resto.
Esqueceram de perguntar
que rato era esse,
a quem servia sua caça,
e quanto se perdia no caminho.
Assim nasceram gatos velozes,
eficientes até,
mas que, ao final,
já não distinguiam necessidade de excesso,
nem justiça, de vantagem.
Cresceram-lhes os músculos do topo,
peito inflado, braços fortes,
enquanto as pernas, esquecidas,
mal sustentavam o peso do próprio êxito.
E a cabeça, entregue à gula,
já não pensava — consumia.
De privilégios fez alimento,
de exceções fez regra,
e do comum, aquilo que restava.
Mas um corpo assim, ainda que imponente,
não caminha longe.
Falta-lhe o equilíbrio invisível,
aquele que não se mede em força,
mas em sentido.
Pois há uma diferença sutil,
e decisiva,
entre crescer e desenvolver-se.
Crescer é expandir o que já se tem.
Desenvolver-se é harmonizar o que se é.
E nisso, muitos se perdem.
Porque o verdadeiro trabalho não está
em na escolha entre olhos,tampouco
fazer um ao outro que se odeiem
ou inflar do corpo parte apenas
mas como um todo cultiva lo.
Uma cultura que não negocia o essencial,
que não se curva ao ganho fácil,
que reconhece no coletivo
não um obstáculo, mas um destino compartilhado.
Quando esse interior se forma,
os olhos deixam de disputar — convergem.
O corpo deixa de compensar — sustenta.
E a cabeça deixa de devorar — compreende.
Então, o gato não apenas caça.
Ele sabe quando, como e por quê.
E os homens, por sua vez,
deixam de ser conduzidos por extremos,
para se tornarem autores de equilíbrio.
Porque aprenderam, enfim,
que não há modelo que resista
quando o interior está vazio,
nem desordem que persista
quando o essencial é cultivado.
E assim, entre erros e tentativas,
vai se desenhando não o gato perfeito —
mas o possível.
Não O Ibasta ao gato ver com dois olhos,
nem possuir corpo forte e bem distribuído,
nem ainda cabeça que calcule e decida.
Pois, se por dentro lhe falta sentido,
ele se perde — mesmo quando acerta.
Há gatos que caçam muito,
mas devoram sozinhos.
Outros que enxergam longe,
mas tropeçam nos próprios excessos.
E há os que, fortes na aparência,
carregam por dentro o vazio da medida.
O verdadeiro equilíbrio não nasce da forma,
mas do que a sustenta em silêncio.
É no invisível que se decide o visível.
Uma cultura de verdade
não se proclama — se pratica.
Está no gesto pequeno que não busca vantagem,
na escolha que respeita o que é de todos,
na recusa do ganho fácil que compromete o amanhã.
É quando o certo deixa de ser exceção
e passa a ser o costume.
Então, a cabeça já não devora — orienta.
O corpo já não ostenta — sustenta.
E os olhos já não disputam — convergem.
E o gato, enfim, não apenas caça o rato,
mas sabe por que o faz,
para quem o faz,
e até quando deve fazê-lo.
Porque descobriu, em seu íntimo,
que força sem medida é queda,
riqueza sem partilha é ruína,
e poder sem propósito é vazio.
E assim, inteiro por dentro,
passa a caminhar com firmeza por fora.
Disseram outrora que havia uma terra prometida,
fértil, vasta, destinada.
Mas poucos compreenderam
que antes de qualquer chão externo,
há um território silencioso a ser conquistado.
O interior de cada homem
é a sua Canaã.
Não uma dádiva pronta,
mas uma posse por realizar.
Ali também há desertos,
há terras duras,
há sementes que não vingam
se lançadas ao acaso.
Cumpre, portanto, tomar posse —
não pela força bruta,
mas pela escolha.
Escolha de palavras,
que não sejam vãs nem ocas,
mas sementes de sentido.
Escolha de princípios,
que não oscilem ao sabor do vento,
mas se firmem como raiz.
Não castelos de aparência,
nem torres que desafiem o céu por vaidade,
mas uma construção singela,
erguida na rocha do que é verdadeiro.
Porque o que se levanta sobre a areia
impressiona por um instante,
mas não permanece.
E o que se constrói por dentro,
ainda que invisível aos olhos apressados,
torna-se fundamento para tudo o mais.
Assim também se dá entre os homens.
Nenhuma obra coletiva se sustenta
se seus construtores
não tiverem antes aprendido a sustentar-se.
Não há cidade justa
onde o interior é deserto.
Não há nação equilibrada
onde o espírito é raso.
Pois o exterior é sempre reflexo —
ampliado, multiplicado —
do que em cada um foi cultivado ou negligenciado.
Por isso, antes de erguer sistemas,
leis, mercados ou poderes,
urge erguer o homem.
E erguê-lo não na estatura do ter,
mas na profundidade do ser.
Então, pedra sobre pedra,
palavra sobre palavra,
princípio sobre princípio,
vai-se formando não apenas um abrigo,
mas um sentido.
E, quando muitos assim constroem,
o que era sonho coletivo
deixa de ser miragem
e começa, enfim,
a ganhar chão.
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